quarta-feira, 29 de agosto de 2012

EU, EU E MAIS EU


    Sabe aquela história de que se você quer alguma coisa bem feita faça você mesma? Meninas, é o contrário! Essa nossa incrível autoestima que nos torna tão centralizadora está é nos deixando exaustas, mal-humoradas, com libido zero. O tratamento é doloroso e radical. Mas funciona. E o remédio é delegar.Por Ana Paula Padrão

   Nos últimos anos, passei a alimentar  um discreto rancor por algumas verdades absolutas que me aprisionam  na roupinha da Mulher Maravilha.  Aliás, roupinha ridícula, hein? Um  tomara que caia todo vermelho e dourado que deixa os peitos pontudos e uma calçoIa azul de estrelinhas com uma cordinha pendurada na cintura de pilão! Botas de verniz de cano longo e com salto alto! Tiara de princesinha prendendo o cabelão cacheado! E aquela capinha de heroína flanando ao vento... Coisa mais datada... Fico imaginando que mulher, por mais maravilhosa que seja, conseguiria botar a louça na máquina vestindo essa parafernália! Que dirá combater o crime e libertar os fracos e oprimidos...  Não dá, esse modelito não nos serve. Mas continuamos espremidas dentro dele e, o pior, adorando posar de Super Isso, Super Aquilo. Uma superenxaqueca e uma superressaca são tudo que me resta toda vez que eu visto a capa da Maravilha e saio por aí salvando o mundo de todas  as suas terríveis imperfeições.

       Em dias assim eu trabalho. Como todos os dias. Tipo 14 horas por dia. Mas também faço supermercado. Ninguém escolheria os limões-sicilianos como eu. E decido o que vai ter para o jantar durante toda a semana. Preciso levar em consideração a dieta nova do marido. Eu levo a roupa para a lavanderia. Aquela mancha na camisa tem que ter uma explicação especial para que os profissionais saibam como tirá-la. Eu termino o relatório que ninguém consegue fazer no escritório. Eu pesquiso. Eu almoço com clientes. Tomo café com clientes. Faço apresentação para clientes. Eu faço meu check-up, distribuo os resultados a cinco médicos diferentes e marco consultas com todos eles. Fora do horário de trabalho. O que significa madrugar. E, portanto, dormir muito, mas muito menos do que as míseras sete horas que todo mundo deveria ter toda noite para conservar alguma saúde.
   Leio os jornais. Muitos deles. E livros, alguns deles. Claro que ainda tenho que fazer escova no cabelo. Fazer as unhas uma vez por semana. Pintar o cabelo a cada 20 dias. Hidratar a cada semana. Ligar pro pai. Pra mãe. Pra sogra. Atender as amigas desesperadas e oferecer o ombro para que elas chorem as pitangas. E tenho que fazer tudo isso direitinho, como só eu sei fazer. 
   Bem, é aqui que voltamos às verdades absolutas e aos cretinos que as inventaram. Sabe aquela história de que se você quer alguma coisa bem feita faça você mesmo? Deveríamos pendurar quem disse isso num poste, de cabeça para baixo, para servir de exemplo. Meninas, é o contrário! Se você quer alguma coisa bem feita, não a faça você mesma. Inclusive porque você quer todas as coisas bem feitas e o dia tem apenas 24 horas, e é claro que, das duas uma: ou não vai dar tempo ou alguma coisa vai ficar malfeita. 
   Outra verdade absoluta que colou nos últimos tempos é que nós, mulheres, somos muito, mas muito especiais mesmo! Somos autênticas, independentes, flexíveis, versáteis, dinâmicas, práticas, sábias, sensatas, inteligentes, atentas, multifuncionais, magnânimas, antenadas, temos o tal do sexto sentido, sabemos seguir nossa intuição e ela sempre nos leva ao caminho correto, enfim, somos o último biscoito doce do pacote! Certo? Errado. Vamos todas ser gongadas no quesito humildade. Estamos todas fora do nosso juízo perfeito se deixarmos nossa incrível autoestima tomar conta da nossa agenda. 
    Antes que alguém pense o contrário, eu adoro ser mulher! Uma vez, numa viagem ao Butão, um monge me disse que na próxima encarnação eu poderia voltar como homem se desse uma pequena contribuição ao mosteiro. Deve ser terrível ser mulher no Butão. Encarnar como invólucro de testosterona vale bem mais naquelas bandas do mundo. Agradeci, mas disse que estava bem satisfeita no formato mulherzinha. Apesar de achar aquela lista de adjetivos ali de cima meio exagerada. Não que ela não seja verdadeira, e já me perdoem pelo cabotinismo! Só que é apenas um lado da condição feminina. O outro, bem mais feio, é o da mulher exausta, mal- humorada, libido zero. Justamente porque acha que pode exercitar todas aquelas incríveis qualidades o dia todo todos os dias. 
   Centralizar é um erro. Eu sei que quando a gente vê o marido tentando fazer a mala para a viagem de trabalho dele dá vontade de sair correndo e refazer tudo. Pra ficar bem feita. Quando a gente entrega a lista de compras para que ele se vire no supermercado, já que está com a agenda livre naquele dia, tem que se conter para não criticar o fato de que agora tem mais cerveja do que refrigerante diet na geladeira. Ora, você já parou para se perguntar se a mala dele tem que ser feita do jeito que você faria? 
   Já pensou que ele está sendo muito esperto quando diz docemente que só você tem aquele talento especial para deixar tudo arrumadinho na mala e nos armários e que ele é um desajeitado sem cura? E que há anos todos eles usam argumentos assim para que você saia para trabalhar mas deixe tudo arrumadinho em casa? Você já imaginou que seu carrinho de supermercado só é melhor do seu ponto de vista e que pode ser que ele não suporte mais refrigerante zero no jantar? Não dá pra relaxar e curtir aquela cerveja com ele num fim de dia em que você, talvez, por acaso, não tenha trabalhado demais para cumprir aquela insanidade de compromissos? E que esse frescor mais o efeito da cerveja podem fazer milagres pela relação a dois? 
     Isso para falar da vida doméstica. No trabalho, podemos ser ainda mais atabalhoadas. Sob o manto da gestão horizontal, tipicamente feminina, escondemos nosso afã de acompanhar cada etapazinha de cada processo e dar pitaco em todas elas. Amiga, se você ainda não entendeu do que se trata, eu estou aqui falando de poder. Já se disse sobre ele que embriaga, alucina, destempera. Tudo isso é verdade. E esses tantos séculos em que fomos privadas de qualquer poder acumularam em nós uma espécie de anemia crônica. Mandar é bom. Mandar em tudo é ótimo! Pena que seja impossível. Mas continuamos lá dando nosso sangue e vestindo aquele corpete justérrimo da wonder woman para não abrir mão de nem um naco do poder de decidir. E de decidir, pela primeira vez em muito tempo, sobre nossa própria vida. Não, não se engane, esse não é um argumento bonito para defender um sentimento nobre. É uma doença. 
     E tem cura? Claro que tem. O tratamento é doloroso e radical, mas funciona. Para decidir de verdade, o remédio é delegar. Ensine o outro - e principalmente a outra, oh, o medo da competição! - e não fique perto acompanhando cada passo da tarefa. Entregue a missão, estipule metas, resultados, datas. E cobre. Simples assim. A primeira experiência será horrorosa. O resultado final vai lhe parecer muito aquém do que você mesma teria feito. Ok, controle-se. Está de fato ruim ou apenas diferente do que você faria? Enxergar alternativas vai abrir sua cabeça e seu coração além de muito espaço na sua agenda. 
     Delegue ainda tarefas domésticas. Seja esperta. Valorize-as! Imite o que eles sempre fizeram conosco. Faça parecer maravilhoso arrumar a mesa para os convidados. E deixe que outros - e principalmente aquele outro! - assumam o serviço. Diga que cozinhar é bom. Que homens na cozinha são supersensuais. Que ser um chef elogiado está na moda. Minta, se for preciso! Mas salve-se a tempo da praga centralizadora que suga sensualidade e seca feminilidade. Agenda apertada é menopausa antecipada. Delegue parte da sua listinha de afazeres antes que, da supermulher, reste apenas aquela capinha. .. 

..         (Revista  LOLA, maio  de  2012.)

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