sexta-feira, 3 de agosto de 2012

PEQUENOS PRAZERES


          Aventuras de uma mulher que fez uma cirurgia bariátrica (redução de estômago) para emagrecer.
         Achei muito interessante este artigo, principalmente para as pessoas que acham serem as cirurgias uma solução para os seus problemas estéticos, mas não lembram dos sofrimentos por que terão de passar.

ANTES
     Não bebo. Sou abstêmia por opção. Entre comida e bebida, sempre preferi minha parte em sólidos. De preferência, bocaditos bem temperados , fritos, assados, refogados. Trocava qualquer refeição por pastel, empada, coxinha, presunto cru, queijos duros, pão, batatinha frita. Salgados de maneira geral. Nunca, jamais, em tempo algum, pensei que essas características me credenciassem como caso ideal para a cirurgia bariátrica. Sim. Sou uma gourmet operada.
     Meus terríveis hábitos alimentares  levaram o ponteiro da balança a se mexer do jeito que eu gostava de comer: devagar e sempre. Resisti muito em fazer a cirurgia. Na verdade, demorei dez anos entre pensar no assunto pela primeira vez e entrar na faca. Ponderei, argumentei, relutei (tudo isso comigo mesma): como viveria sem satisfazer minhas caprichosas papilas gustativas?  Relutei. Até que a realidade me sacudiu. No ano passado (que, por uma série de problemas graves de saúde na minha família, reuniu os piores dias da minha vida), um início de uma hérnia na lombar e um joelho com a cartilagem desgastada me chatearam bastante. Resultado de um índice de massa corporal superior a 40 pontos, que me qualificava como obesa mórbida nível 3. Até tinha paciência de levar a vida assim. Mas toquei o fundo do poço quando minha pressão bateu 17 por 14. E eu estava tomando remédio para controlá-la há muito tempo. Operar, então, se tomou uma decisão, pelo menos a médio prazo, de sobrevivência.
    Fui ao cardiologista, que me recomendou um endocrinologista, Daniel Lerário, que me mandou conversar com o chefe da equipe com a qual ele trabalha, o gastro Thomas Szegö, precursor da cirurgia bariátrica por laparoscopia. De imediato, ao ouvir meus hábitos alimentares, ele disse: "Você é caso ideal. Não é do tipo que gosta de lautas refeições e não bebe". Das muitas coisas que ouvi naquela consulta, uma me deu fortes esperanças: "Você vai trocar as churrascarias pelos restaurantes franceses com suas porções pequenas". Agora, cá entre nós, o que me convenceu mesmo foi ele dizer que sabia que eu não conseguia perder peso. Enfim, alguém confirmou que eu sofria de uma condição de saúde, a obesidade. Eu não era uma fracassada de dietas profissional.
      Contei a decisão para minha mãe. Ela perguntou todos os detalhes sobre o procedimento, conhecido como derivação gástrica com reconstrução em Y de Roux. Resumo: um pedaço bem pequeno do meu estômago seria separado e ligado ao intestino. Apavorada com a ideia, ela jogou baixo: "Minha filha, não faça isso. Você... [pausa dramática]... nunca mais poderá comer farofa". Balancei. Hoje, sei que não é bem assim. Eu posso comer farofa. Pouquinho e devagar. Mas nem a imagem do mundo sem farofa me faria capitular.

DURANTE       
      Por dois meses, fui a consultas com fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga e tentei não pensar no pós-operatório. Me viraram da cabeça aos pés, com exames laboratoriais e de imagem. Toda noite fazia exercícios para aumentar a capacidade respiratória e circulatória. Entre uma soprada e outra, uma flexão e outra, elaborava mentalmente uma lista de tudo o que eu queria comer antes da operação. Me contive. O alerta era claro: se aumentasse de peso até a cirurgia, nada feito. A temporada pré-faca incluiu uma viagem para Buenos Aires, onde tive a pachorra de tomar um sorvete de doce de leite com chocolate no Freddo. Isso depois de traçar um bife de tira com papas fritas. Para compensar, andava bastante. Dois dias depois de chegar a São Paulo, eu era admitida no hospital.
       Dois dias após a operação, veio a alta. Seis pequenos cortes arroxeados denunciavam a cirurgia. Não tinha dor, mas me sentia mexida. Não tinha vontade de comer muito. A dieta de caldo, coado, sem resíduos, bebidas isotônicas, sucos de determinadas frutas, água de coco e gelatina diet, nos primeiros dias, caiu bem. Bebia em intervalos de meia hora e em porções de 20 mililitros (meia xícara de café) divididos em pequenos goles. Ai, credo. Não posso nem escrever "gelatina diet" que me embrulha o estômago (pequeno). O gosto do ciclamato foi ficando cada dia mais acentuado. Até que o simples aroma acabava comigo. Isso se repetiu com tudo que tinha conservante e corante. O momento alto do meu dia era o beef tea, um caldo bem ralinho feito com água, vegetais e acém, cozidos durante horas. Aquilo era a única coisa que me dava força, substância. E era gostoso. Entre o almoço e o jantar, comia caldo (uma água suja) de aspargos, beterraba (um primo distante do borsh), frango. Zero café, zero chá com cafeína.
     Uma dor de cabeça infernal abriu minha segunda semana depois de operada. Claro, abstinência de café. No dia que se seguiu, comecei a saber a hora que cada pessoa chegava em casa. Pelo olfato. Virei uma cachorra caçadora de trufas, pensava! Um amigo médico explicou que meu corpo estava em cetose, um estado metabólico induzido pela falta de carboidrato. Sim, eu sentia fome. Que era saciada rapidinho, com a porção que me cabia. E logo em seguida tinha fome de novo. Só que eu, a gordinha gourmet, não queria a mesma sopa da meia hora anterior. Isso transformou minha cozinha numa fábrica de caldos.
       Uns 20 dias depois do ato cirúrgico eu já estava subindo pelas paredes. Nem era tanta vontade de usar os dentes para os devidos fins. Mas de sentir algo mais consistente na boca. Reclamei tanto que fui autorizada a bater a sopa e a coar. A vida, aos poucos, foi ganhando corpo: cremosa, pastosa e, enfim, sólida.

DEPOIS
      Aos pouquinhos, fui tentando coisas "novas". E tudo foi ganhando outra dimensão. O que antes eu comia na maior tranquilidade deixou de ser assim. E, graças: o inverso também. Descobri que desidratação dá, antes de mais nada, um baita enjoo. Uma náusea me acompanhou várias manhãs, até eu descobrir o melhor antídoto: frutas. Cheias de líquido e açúcar, elas se tomaram, como nunca antes nos meus 44 anos, apetitosas. A sensação de bem-estar que se segue a uma boa salada de frutas, hoje em dia, é impagável. Se me dissessem isso há seis meses (eu operei há quase cinco), eu chamaria a pessoa de louca. Nunca fui fã de frutas: só de manga, banana e fruta-do-conde. Aquelas que os endocrinologistas não recomendam em suas dietas.
      A mudança mais radical de todas passou a ser a potência dos sabores. Alimentos de sabor forte e intenso passaram a não me enlouquecer, como no passado (nem tão distante). Iguarias defumadas, por exemplo, não rolam. Têm sabor acentuado demais. Comer virou uma experiência muito mais intensa Que não termina quando eu engulo. Hoje em dia, ao colocar um pedacinho de qualquer coisa na boca, sou capaz de lhe dizer se aquilo vai ou não cair bem no meu estômago, essa coisinha pequetita. E quando digo "cair bem" é de modo literal.
       Pães, uma das minhas maiores perdições, perderam boa parte de sua graça. Eu tentei, confesso. Passei a La Motte (já provou?), uma manteiguinha com sal marítimo, num pedaço de pão  francês quente. O sabor na boca era o mesmo, explosivo, reconfortante para a alma. Fiz, como recomendou a nutricionista, uma papinha na boca e engoli. A primeira dentada desceu bem. A segunda também. Pois bem, a terceira parou no meio do caminho, como se eu tivesse comido um pedaço grande de carne assada, seca, sem molho. Estacionou e puxou o freio de mão. Ato reflexo: tomei um belo gole d'água. Catástrofe: em vez de o líquido me ajudar, me afogou. Comecei a salivar em quantidades industriais. Pavor, suor frio, sensação de sufoco. Ruim o bastante para não querer repetir a experiência.
       Meu cérebro passou a registrar de forma rápida e esperta tudo o que me dá prazer. E não são, necessariamente, as mesmas coisas de antes da cirurgia. Por exemplo, toda vez que monto meu prato, incluo vegetais. Eles não passaram a ter um sabor sensacional, mas segregam água, que me ajuda na "descida" do alimento. Carnes, só as bem ensopadas, molhadinhas. Gordura, só o essencial. Ainda AMO pastel. Só que não como mais ele inteiro (ok, eram dois de feira). Um terço agora me satisfaz. Fina, né?
    Não estou aqui fazendo apologia da cirurgia. Porque só eu sei o que passei no pós-operatório. E o medo que tive: o que faria com o tempo livre? Porque vamos combinar uma coisa: é matemático. Eu gastava muito mais que o dobro do que hoje com refeições e afins. O que faria para me divertir com tanto tempo de sobra? Até o presente momento, tenho me distraído bastante. Perdi 29,5 quilos e um guarda-roupa, o que me levou ao maravilhoso mundo das compras. Fazia anos que não conseguia comprar peças no Brasil, país onde as gordas só usam tecido estampado escuro e de fibra sintética. Ai, credo! E ainda como. Ontem mesmo. Comi uma bombinha incrível, recheada de creme, com cobertura de chocolate meio amargo belga. Só que eu comi uma. Todo mundo comeu de duas para cima. Ela era pequeninha, coisa de 4 centímetros. E me satisfez.

    (Por  Patrícia Hargreaves, revista LOLA, abril  de  2012)





1 Comentários:

Às 17 de setembro de 2012 17:22 , Blogger Eunice Amorim disse...

Adorei o blog....
Decidi pela bariatrica e vou ter minha primeira consulta agora em outubro.., mas ja agendei os demais profissionais pra ganhar tempo....
Enfim ler e pesquisar nessa fase e muito animador obrigada por dividir tanta coisa legal...experiencias vivas...bjs

 

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