sexta-feira, 16 de março de 2012

PELO DIREITO DE SER DOIDA

  Na seção “Filosofias” da revista LOLA, de março 2012, há uma interessante crônica de Ivana Arruda Leite, socióloga, uma das principais escritoras de ficção da geração 1990-2000, autora do blog “Doidivanas”, que explica por que é essencial perder o juízo de vez em quando. Reproduzo na íntegra para não estragar o sabor do texto.

    " Num mundo onde ser aceito nas rodas sociais é a confirmação da nossa existência, ser maluco exige coragem e obstinação. É tarefa para poucos. Mas tudo se ajeita quando descobrimos que sempre estivemos certos na obstinada teimosia em sermos nós mesmos.”

    Embora pareça incrível, uma das mais árduas batalhas que o ser humano trava na vida é pelo direito de ser doido. Parece fácil, né? Não é não.
    Num mundo onde ser aceito nas rodas sociais é a confirmação da nossa existência e o passaporte para a felicidade, onde somos medidos pelo número dos amigos que temos, dos convites para festas que recebemos, dos seguidores que temos nas redes sociais, ser malvisto, malquisto, ridicularizado ou simplesmente ignorado equivale a arder nas profundezas do inferno.
     Ser maluco exige coragem e obstinação. Por isso mesmo, é tarefa para poucos.
     Claro que não estou falando dos casos patológicos. Há os que saem da maternidade com a tarja preta no pulso e o selo da loucura impresso na testa. Desses, tudo se perdoa. São devidamente medicados, trancafiados e não se fala mais nisso.
     Falo daquele outro grupo de crianças consideradas boazinhas, engraçadinhas, nascidas de famílias certinhas, mas que trazem dentro de si, bem escondida, a vocação para a maluquice.
  Sou um desses casos. Cedo comecei a ser a nota desafinada do coro familiar. Nas brincadeiras, bailes e festinhas, era difícil achar alguém que me fizesse companhia. Na escola, eu estava sempre no contrapasso do batalhão.
     Meu gosto era o desgosto de todo mundo. As roupas extravagantes que eu usava, o cabelo crespo que eu teimosamente exibia quando a moda era tê-los lisos como seda, os filmes dos quais eu gostava, as músicas, os livros, tudo em mim era visto como birutices de uma menina meio lelé da cuca, como se dizia então.
   Até os meninos  de que eu gostava eram os mais estranhos da turma. Hoje seriam chamados de nerds, ou cabeçudos. A verdade é que, quanto mais estranhos fossem, maior era meu encantamento. Mas, como eles também não saíam de seus casulos, a paixão acabava não dando em nada.
      Em 1967, quando Caetano apareceu cantando Alegria, Alegria, as pessoas riam da minha cara ao me ouvir falar que ele era maravilhoso, mil vezes melhor que o Roberto. "Imagina!", diziam indignadas com a heresia, "Isso lá é música que se apresente? Acabou o festival, ninguém mais vai saber quem é esse maluco."   
      O mesmo se dava quando eu ia para a rua com uma margarida pintada no rosto à Ia Rita Lee. Minha mãe se perguntava desconsolada: "Onde foi que eu errei?". E, cada vez que eu preferia ficar em casa com a cara enfiada num livro qualquer a ir aos tais bailinhos que tanto me faziam sofrer, meu pai matutava: "Esta menina não bate bem".
       Minha vida de aprendiz de doidivanas não era fácil.  Eu pagava caro por isso. Broncas em casa, risinhos maldosos e gozações de toda ordem (o popular bullying) na escola, descaso total dos meninos.
      Na maior parte das vezes eu me sentia muito sozinha. Mas engolia o choro e ia em frente. Dois passos pra frente e um pra trás, como convém a quem avança em território inimigo.
    Por maiores que fossem os obstáculos, nada me fazia desistir das coisas nas quais eu acreditava.
     Eu sabia que, na hora em que abrisse mão do meu modo de ser, estava condenada a me tomar "um deles". E esse era o meu maior temor.
    Não por acaso, meu mantra na época era o lindo poema Cântico Negro, de José Régio - "Não sei por onde vou, / não sei para onde vou / Sei que não vou por aí." -, que Bethânia recitava lindamente.
     Com o tempo as coisas foram ficando mais fáceis.
     Como percebi depois, maluquice é uma questão geográfica. Depende do lugar onde você está, da turma com quem você está andando.
   Tudo se ajeita quando encontramos pessoas que nos mostram que não só não estamos sozinhos como também sempre estivemos certos na obstinada teimosia em sermos nós mesmos.
     Não que eu seja adepta da convivência exclusiva entre iguais. Pelo contrário, a diversidade é a graça da vida! Mas que é bom ter na manga aquela meia dúzia de amigos com quem podemos contar para dividir as angústias, os sonhos e as muitas incompreensões que nos assaltam, lá isso é.
    Por isso, antes de desistir de ser maluca e tentar se encaixar nos padrões pré-moldados, pense bem se você está no lugar certo, no trabalho certo, namorando a pessoa certa, se relacionando com a turma certa.
   Eu a aconselho a dar uma volta no quarteirão. Vai que seus verdadeiros parceiros estejam  ali na outra esquina...
   E não tenha medo. Nossas maluquices só são  perigosas quando vistas no quarto escuro dos nossos temores. À luz do sol, elas não fazem  mal a uma mosca.
   Acredite: o planeta não corre nenhum risco se você desembainhar a espada e bradar aos quatro ventos: "Tô nem aí para o que pensam de mim ou ir julgam a meu respeito".
    O máximo que pode acontecer é aparecer no seu rosto um lindo sorriso que a deixará mais bonita do que você já é.

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