sábado, 24 de março de 2012

GAROTAS SUPERPODEROSAS X PRINCESAS COR-DE-ROSA

  A ascensão no mercado de trabalho e as possibilidades que se abriram para as mulheres  parecem ter  um efeito colateral na vida afetiva. Dados do IBGE sugerem que, bem-sucedidas, elas encontram menos opções de homens "à altura delas" e estão mais solitárias. Daí surge a luta entre a garota superpoderosa e a princesa cor-de-rosa que vivem dentro de cada mulher. Mas será que o diploma, a carreira e a independência financeira são mesmo o x da questão?

    Segundo os estudiosos desse  tipo de problema, como a antropóloga Mirian Goldenberg, da Universidade Federal do Rio de Janeiro,  as garotas superpoderosas andam se  estranhando com as princesas cor-de-rosa. Elas seriam as duas facetas das mulheres que hoje têm mais de 30 anos, alto nível de escolaridade, realização profissional - e também o ideal à de amar ou casar com um cara que seja bacana como elas. Bacana, no senso comum, seria o homem  tão ou mais estudado e bem-sucedido que elas. Essas são as mulheres que, instaladas hoje em patamares mais elevados da pirâmide social, olham para o lado e para cima e se dão conta de que suas opções de encontro amoroso dentro desse parâmetro se reduziram muito.
 Sim, porque no topo cabe menos gente. A solução, têm dito estatísticos e outros especialistas, é casar "para baixo". Nunca foi fácil encontrar a tampa da panela, e provavelmente os novos tempos trouxeram mais complexidade à questão. Homens e mulheres mudaram, a sociedade mudou. Mas será que já não partimos em desvantagem quando usamos a figura da pirâmide, tão adequada para alegorias socioeconômicas, também para ilustrar as emoções? E por que as garotas superpoderosas de hoje ainda guardam essa princesa cor-de-rosa dentro de si?
    "Em outros países, a mulher investe um período só na carreira, outro no casamento, outro na função de mãe.  Mas a maioria, entretanto, não quer subtrair nada, observa Mirian. "As mulheres não veem problema em acumular desejos, mas aí enfrentam um conflito muito grande." Recentemente, um cruzamento de informações do IBGE mostrou que o número de universitárias livres supera em 54% a quantidade  de homens na mesma situação - nos grupos menos  instruídos, a diferença não passa de 10%. Espalhou-se logo a conclusão de que diploma, veja só, é atestado de fracasso afetivo para o time feminino. 

Valores em conflito
    A ascensão da mulher é um fato tão recente na história que não existe base de comparação. O que há são tentativas de todas as partes de entender como a mudança se reflete nas questões amorosas. Uma tese é a de que, até aqui, caminhamos para o que a psicóloga Valéria Meirelles, de São Paulo, chama de era genderless, ou sem gênero. No dia a dia, muitos casais dividem as tarefas: tanto faz quem trabalha, cozinha ou vai à reunião na escola dos filhos. "Todos estão autorizados a assumir qualquer papel e estabelecer as conexões que mais lhes convêm", diz Valéria.
   Mas, ao que tudo indica, muitas vezes os valores resistem às práticas. Um estudo recente do centro de pesquisa americano Pew Research mostrou que grande parte dos entrevistados considera a relação em que os dois trabalham melhor do que aquela em que a esposa é responsável pela casa e pelos filhos, cabendo ao marido a tarefa de provedor. No entanto, a maioria acha fundamental para um homem, e não para uma mulher, ter condições de sustentar a família antes de formar uma, conforme assinala D'Vera Cohn, redatora sênior do instituto. Sinal de que a sociedade se apega ainda à visão tradicional sobre os papéis masculinos e femininos, mesmo que se comporte de forma liberal em relação ao casamento.
  "Ninguém no restaurante percebe que você tem pós-graduação e seu marido, não; que seu salário supera o dele em 2 mil reais. Entre quatro paredes, porém, é comum existir a dificuldade de ambos em aceitar essas configurações", pondera Mirian.
  Para complicar, ganhou força o clichê de que os homens se acomodaram de vez e as mulheres estão com a bola toda; por isso, não encontram um par. "Eles se acham menos interessados em ser o herói da história, e elas chegam ávidas por esse papel", avalia a filósofa Regina Favre, de São Paulo. Frustradas, muitas adotam o mantra "homem tem medo de mulher independente" para justificar o desencontro. Pode ser mais o caso de uma inabilidade de exercer a livre escolha trazida pelos novos tempos. 
    Albert Einstein disse uma vez - está no livro Como  Vejo o Mundo (Nova Fronteira) - que não acreditava em liberdade porque o ser humano é constrangido ora por questões externas, ora por convicções íntimas. Mal sabia que lançava um questionamento providencial para mulheres do século 21. Afinal, se agora tomamos as decisões, o que nos impede de embasá-las em critérios que sejam mais coerentes para nós neste momento?

Pressão social
    Existe um juízo de valor embutido na ideia de que casar com quem está um degrau acima é o bom, o desejável, e que "olhar para baixo" significaria, então, abrir exceção para não ficar sozinha.
  "Vivi oito anos com um homem mais rico e superinteligente. O relacionamento não foi melhor por causa disso e teve os problemas que qualquer outro poderia ter", conta a empresária Marta Serrate dos Santos, 50 anos, de Juiz de Fora (MG).
    Não seria legítimo, a esta altura da nossa sociedade - e da autonomia que as mulheres já têm -, escolher um companheiro não por seu status ou sucesso, mas por ele ser dedicado, carinhoso, bom pai e fazer uma massagem incrível? "A essência do feminino é compartilhar, procurar o bem-estar; a maioria busca alguém com quem possa ser feliz, não importa a posição social" - diz a socióloga Celia Belem, de São Paulo.
   Na prática, claro, existem desafios a ser vencidos. A empresária carioca Marcia Barboza Hormes, 38 anos, é formada em desenho industrial  e em artes e trabalhava como executiva de uma grande empresa quando se apaixonou pelo taxista Márcio André Ribeiro, 35. Os dois se casaram há cinco anos e têm  dois filhos, de 4 e de 1 ano. "Mesmo depois de tanto tempo juntos, vejo que existe preconceito, ainda que velado", afirma Marcia. "Mas vivemos em um mundo tão instável; hoje, estou indo bem nos negócios, amanhã pode ser o contrário. E aí vou trocar de marido como quem assina um cheque?"
     Em muitos países, vê-se de forma mais prática o fato de a mulher trabalhar e o homem ficar em casa. Na Austrália, o crescimento do número de mulheres chefes de família e homens que assumem a vida doméstica tem chamado a atenção dos institutos de pesquisa, revela Marian Baird, coordenadora de estudos do The Women and Work Research Group, em Sydney. "Esse fenômeno recente deve impulsionar uma reorganização sociocultural, inclusive com políticas públicas que garantam melhores condições para as mulheres no mercado de trabalho."
    Aqui, os antigos valores ainda prevalecem, mesmo se contrariam a matemática. Quando o marido da assessora técnica parlamentar Tânia Mazotti, 40 anos, de Brasília, perdeu o emprego, há quatro anos, o casal colocou tudo na ponta do lápis: se ele ficasse em casa, cortariam o gasto com empregada, transporte para levar as duas filhas à escola, combustível para ir ao trabalho e voltar. Ela ficou receosa e se incomodou com alguns comentários que ouviu, mas seguiram a lógica dos números. "Somos mais felizes agora; brigávamos mais antes, porque ele ficava muito estressado com o trabalho", garante Tânia.
    O fato é que as mulheres ainda estão sendo criadas com dois pesos e duas medidas: buscam independência na carreira e  ficam à espera de um amor à moda antiga . Isso gera confusão e frustração. Mas esses dilemas são mais confortáveis do que os que vivíamos quando estávamos todas lá embaixo, na base da tal pirâmide, menos educadas, menos autônomas e com menor poder aquisitivo. "Não conheço mulher que queira voltar no tempo e ser igual à mãe ou à avó", diz Mirian Goldenberg. As superpoderosas e as princesas cor-de-rosa vão ter de entrar em acordo.
          (MARCIA KEDOUK, na  seção Reflexão, da revista CLAUDIA, março de 2012)

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