sábado, 17 de novembro de 2012



SINCERIDADE  É  DOENÇA?  (Walcyr Carrasco)

    Sofro de uma inconveniente compulsão para dizer a verdade.    
    Seria uma qualidade, se não provocasse situações
constrangedoras. Como na ocasião em que fui apresentado ao elenco de uma montagem sobre a vinda da família real ao Brasil, na Casa Julieta de Serpa, no Rio de Janeiro. Diante da intérprete de Carlota Joaquina, disse:
   - Você é perfeita para o papel!
   Ela sorriu, feliz. Tragicamente, continuei:
   - Carlota Joaquina era muito feia!
   Foi um horror. O pior, nessas situações, é tentar remendar.
   Uivei:
   - Não que você seja feia, assim... feia. Seu nariz é que é... quero dizer, reto. É, reto, e isso dá um charme especial porque seu quelXo...
   O clima piorou. O maquiador, velho amigo meu, avisou:
   - É melhor ficar quieto.
   Silenciei.
   Saias justas como essa são frequentes na minha vida. Recentemente encontrei com minha prima Damaris, 64 anos, numa reunião de parentes. Lá pelas tantas, o assunto girou em torno de aparência, rugas, cremes, cirurgias. Damaris perguntou:
   - Acha que preciso de plástica?
   - Precisa sim, respondi, impávido.
   Ela fechou a cara, bravíssima. Ninguém espera sinceridade quando pergunta algo assim. Quer elogio. Tenho terror a comparecer a estreias de teatro. Conheço muitos atores e, depois da peça, é praxe esperar o elenco para cumprimentar. Adquiri muitos inimigos sendo sincero nessas ocasiões. Depois de cativar patrocinadores, ensaiar meses e até botar a própria grana no projeto, alguém quer franqueza? Principalmente na noite da estreia, em que só se espera glória?
   Senti isso na própria pele. Já sofri o horror da sinceridade na estreia da minha peça Batom, com Fulvio Stefanini e Luiz Gustavo. Meu irmão Ney aproximou-se, com um sorriso atarraxado no rosto.
   - Quase morri de rir.
   Inflei de orgulho. Ele concluiu:
   - Também, com esses dois, até a lista telefônica fica engraçada.
   Despenquei. Dá para ser pior do que escrever uma peça tão divertida quanto a lista telefônica? Mesmo sabendo quanto dói uma verdade, tenho dificuldade em mentir. Uso uma fórmula para teatro, shows ou qualquer situação em que tenha de cumprimentar o responsável por algo pavoroso. Dou um abraço bem forte e murmuro com voz de mel:
   - Estou tão feliz por você!
   Não quer dizer rigorosamente nada. A pessoa interpreta como elogio. E não minto, o que me daria uma sensação desagradável.
   Soube que, nos Estados Unidos, há um debate em torno do manual de diagnósticos e estatísticas da Associação Americana de Psiquiatria, referência internacional para tratamento de doenças mentais. Querem reformulá-lo estabelecendo novos transtornos mentais, como a compulsão alimentar.
    Uma corrente de psicólogos e psiquiatras é contra. Penso que a sinceridade compulsiva deveria ser incluída como nova e recém-diagnosticada enfermidade. O sincericídio. Minha amiga Verônica, produtora da Globo, garante sofrer desse mal:
   - Queria não dizer a verdade, mas de repente sai! E me quebro toda.
   Verônica pensa em tatuar "cale-se"nos pulsos.
   - Assim aprendo a olhar para os pulsos e fechar a boca antes de ser franca demais com alguém!
   Antigamente, os reis matavam os mensageiros que traziam más notícias - como uma batalha perdida. As pessoas se enfurecem com a verdade. Ninguém quer franqueza, mas elogio. Se uma mulher pergunta se está gorda, quer ouvir que emagreceu. Se uma dama aparece vestida como um espantalho numa festa, pretende que comentem sua elegância. Na cozinha, no teatro, na matemática, no meio acadêmico ou no publicitário, todos sonham com louvores. Há exceções. A atriz Irene Ravache, antes de montar um espetáculo, promove uma leitura do texto em seu apartamento, em São Paulo. Convida amigos e profissionais. "Hoje é a noite da franqueza rude", diz.
   Todos são convidados a dizer exatamente o que acham após a leitura da peça. Autor, diretor, produtor, atriz, todos ouvem.
   E partem para afinar o espetáculo. Irene é uma raridade. São poucos os capazes de ouvir uma crítica com elegância.
   Já perdi muito amigo por excesso de franqueza. Sincericidas sofrem demais, pois amar e dizer a verdade nem sempre dá certo. Chefes costumam ser raivosamente sensíveis à sinceridade absoluta. Na infância, nossas mães nos ensinaram que era lindo dizer a verdade.   
Foi, digamos, um erro de formação.
   Enquanto não surge uma terapia para a franqueza compulsiva, melhor manter a boca fechada. E evitar o suicídio social, amoroso e até na empresa. .
   Quem quer franqueza?
   A sinceridade compulsiva deveria ser uma enfermidade mental - o sincericídio

Walcyr Carrasco é jornalista. autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão.

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