quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

SAÚDE É UM PERIGO !

Esta é uma crônica humorística da conhecidíssima atriz Denise Fraga, em que ela aborda, de maneira bem-humorada,  as dificuldades que temos em escolher entre o que se deve fazer para manter-se em forma e com saúde e aquilo que gostaríamos de fazer porque dá prazer à vida.

      Fazemos parte de um grupo de amigos que se encontram toda semana para jantar, e é quando ela acaba nos falando de suas novas descobertas. Por muito tempo, ríamos um pouco do poder nutricional dos brócolis, optando por nossas picanhas no cardápio, mas, lentamente, fomos sendo seduzidos por essa fada alquimista dos nutrientes e acabamos caindo, um a um, como num livro de Agatha Christie, na cadeira de seu consultório. Nesta semana, soube que o mais resistente de todos, o último dos moicanos, aquele que adorava torresmo e pinguinha, começou a comer arroz integral.
     Estamos perdidos! Ou, melhor, achados! Pois o fato é que tudo melhora, da pele ao colesterol.O que me faz crer que temos mesmo que cuidar do que colocamos na boca. É fato. Mas também é fato que nossos deliciosos jantares de antes caem agora em questão de segundos numa consulta coletiva. Vamos nos policiando, mas a síndrome não é só de nossas mesas. Palavras como fibras, serotonina, ômega, probiótico, etc. andam por aí a todo o vapor em bocas leigas. Agora, até aquela sua tia que faz a melhor feijoada da face da Terra anda chamando batata de carboidrato!
    Se nossas avós trocavam receitas de bolo, hoje trocamos receitas de baixar colesterol.
      O que a gente quer? Se sentir bem, creio eu.
      Mas me sinto tão bem quando como aquele pastel da feira perto da minha casa! Ainda não conseguimos resolver o dilema entre a pequena e a grande felicidade. O que é bom fazer e o que é bom de fazer. Viver saudável não significa viver feliz.
     Queremos ser saudáveis, mas a disciplina exigida para a mudança dos hábitos nos deixa infelizes, e o número de coisas que achamos que devemos fazer pela nossa saúde acaba sendo insalubre, desumano e criando uma ansiedade danada.
      Confesso que morro de saudade do tempo em que minha nécessaire era uma escova de dentes, um xampu, um condicionador e um desodorante e tudo parecia estar bem. Comia arroz com feijão em quase todas as refeições e a vida andava. O mundo parecia simples, até eu descobrir que não dá para existir sem creme hidratante. Tempos depois, que não basta hidratar o rosto, tem que hidratar o corpo também e, mais tarde, que é quase impossível a existência de uma mulher sem leave-in. Como pude, Deus meu, viver tanto tempo sem leave-in?!
      Enquanto eu faço tudo para não engordar, o sobrepeso de minha nécessaire vai ocupando espaço na minha mala. Mais produtos e mais afazeres. Só na questão hidratação, agora é necessário que eu tome oito copos d'água por dia, caramba! E a bola de neve não para de crescer, porque, a cada dia que passa, mesmo que eu não pesquise, acabam me contando mais alguma coisa que devo fazer pelo meu cabelo, minha mente ou meu estômago.
     A medicina preventiva está fazendo a gente viver mais tempo, mas ainda não conseguiu solucionar nossa qualidade de vida para os anos extras. Confesso que muitas vezes desanimo e acabo até colocando 20 e tantas das tais gotinhas homeopáticas no copo d'água por simplesmente estar de saco cheio de contá-las, de comer o que é preciso comer, fazer o que é preciso fazer, do número de coisas que é bom que façamos, mas que não nos dá exatamente prazer. Ao contrário, é chato pra caramba, sem nenhum sabor, mas a gente sabe que faz bem. Na verdade, tenho pensado muito no que é fazer bem.
       Fiz um filme há pouco tempo em que precisava fazer várias cenas fumando. Não sei tragar direito, nunca fumei e nunca aprendi. Minha mãe fumou por todos nós lá em casa. Resolvi aprender a fumar para não fazer vergonha no filme e traguei alguns cigarros verdadeiran1ente pela primeira vez. Entendi tudo. Entendi minha mãe, o prazer dos fumantes e a dificuldade de quem não consegue parar de fumar. Minha mãe parou, graças a Deus. Mas confesso que tenho saudade daquela sensação de paz que me dava quando ela falava "agora eu vou fumar o meu cigarrinho" e ficava ali saboreando o seu pito.
Cigarro faz mal, paz faz bem. Ô, dilema!
    Não sou como Roberto Carlos, pois não é tudo o que eu gosto que é ilegal, imoral ou engorda, mas também não me arrisco a dizer que tudo o que me apetece é saudável e politicamente correto. Acho que evoluímos muito em vários sentidos. Temos gôndolas de orgânicos no supermercados, separamos o lixo, economizamos água, temos vagas para cadeirantes, ciclovias e cidade limpa. Os acidentes de trânsito devem ter diminuído com a lei do bafômetro e nossos pulmões agradecem os restaurantes e shoppings sem cigarros, mas sinto que existe uma assepsia qualquer em nossos dias.
     Uma amiga minha disse, outro dia, diante de outra que insistia para que provasse o tal doce da padaria: "Por favor, não me apresente nada mais que eu tenha que evitar!". Melhor mesmo. Já temos que evitar coisas que nos eram tão cotidianas e inofensivas, como uma xícara de café com leite ou um bife com batata frita, imagine se vamos aumentar nossa lista de tentações. Precisamos estar fortes e atentos para não comer brigadeiro nem demorar no chuveiro.
     Vamos combinar? Tá chato. Vai deixar de se cuidar? Não. Não dá mais pra chutar o pau da barraca quando você tem consciência das coisas.O que você viu está visto e não se apaga da memória. Mas dá para relaxar um pouco, instituir um dia da semana para pecar e contar gotinhaiS diárias de criatividade para inventar coisas divertidas pra fazer no meio de tanta coisa chata. Acho que, de tanto evitar pequenos prazeres, corremos o risco de nos acostumar, inconscientemente que seja, com uma vida insossa e de acabar esquecendo de nos divertir. Ômega 3 faz bem, cantar também. Coma frutas e legumes, mas, por favor, não esqueça de ir ao cinema. Dançar, cantar, ir ao teatro, ao cinema, rir com os amigos, viajar, piquenique e paraquedas ainda são os melhores antioxidantes que existem.
     Pronto! Cá estou eu dando mais uma receita de bem viver. Que seja, pois acho que, se vivemos um tempo em que temos que fazer grande esforço para o que devemos, necessitamos fazer o dobro pelo que queremos. Ponha na lista. Vale a pena!
                                                    ( Revista LOLA,  nº 13)

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