quarta-feira, 6 de julho de 2016

DISTÂNCIAS

 

   Ouvi um cara dizer, num programa de TV sobre tecnologia, que o conceito de distância, tal como eu e os de minha geração o aprendemos, está extinto. Hoje você checa no Facetime do celular e, numa fração de segundos, fica cara a cara com alguém que pode estar do outro lado do mundo. Havia, no tal programa, uma penca de garotos explicando o uso de muitos outros aplicativos de que nunca ouvi falar. Não é Skype não, que isso já está velho e batido - embora sejam variações do mesmo milagre de pôr as pessoas em contato visual imediato, como nos desenhos animados e nos filmes de ficção científica que assisti na infância, quando aquela cruza de televisão com telefone era uma proeza futurista.
   Pois não é que o futuro veio num zás? E já chegou radicalizando a predição que Marshall McLuban fez, em meados do século passado, segundo a qual os meios de comunicação de massa redefiniriam os conceitos de tempo e distância, e nos levariam a um processo de retribalização, pois estaríamos todos, independentemente das barreiras geográficas que nos separam, vivendo na mesmíssima aldeia global. E olha que ele estava falando de rádio e televisão, sem ter a menor ideia de que um dia poderia existir algo parecido com a internet.
   Dias atrás, no saguão de embarque do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, eu vi uma senhora italiana de uns 60 anos falando, via Facetime, com o pai dela, um velhinho que deve ter quase 90. A mulher comia um sanduíche e punha o celular em pé, no colo, para que o pai lhe fizesse companhia durante o lanche., e a visse abocanhar nacos de pão. Pelo que entendi, ele estava em Roma, e a filha lhe dizia que estava a caminho do Rio de Janeiro. Ambos se divertiam com o brinquedo tecnológico e faziam troça da distância, ou da falta dela, tendo o pai pedido à filha um pedaço do sanduba, abrindo a bocarra para dar mordidas virtuais e, em seguida, gargalhar a valer.
    Na fileira de cadeiras bem defronte, uma moça triste e um homem sério, sentados lado a
lado, estavam, cada um em seu celular, mergulhados em suas contas do Instagram, passando fotos em sequência com os dedos, no mesmo movimento ritmado. Só me dei conta de que eram um casal quando a mulher cutucou o homem para saber se ele estava com as passagens, no que recebeu uma resposta atravessada. Acho que são cariocas. Acho que são casados. Acho que vivem juntos. Apesar da fenda abissal que abriram entre uma cadeira e outra.
   McLuhan não sabe de nada. A Roma do velhinho está ao alcance dos olhos da filha. Mas o Rio da moça triste e o Rio do homem sério ficam em planetas diferentes.

 (Marcelo  Canellas – Diário de Santa Maria, 12/06/2016)

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