segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

FELIZ ANO NOVO

 
    Nem adianta a gente dizer que não vai botar no papel. À medida que o Ano Novo se aproxima, há um impulso humano e Irrefreável de buscar o balanço de perdas e ganhos, danos e curas, avanços e omissões de que todos sornas feitos. A lista mental de metas e desejos dá de ombros para o papel e desenha a si própria à revelia da nossa vontade.   
      Ainda que o saco de frustrações, troncho e disforme, nos dê um trabalho enorme para carregá-la, o futuro nos afaga. A ilusão do recomeço nos municia de esperança, corno se a folhinha rasgada do dia 31 de dezembro nos oferecesse magicamente as possibilidades que já tínhamos. Que mal faz o doce autoengano do Ano Novo?
     Por mim, me bastaria um ano que começasse corno naquela letra antiga - acho que do Walter Franco - que, na simplicidade de seus quatro versos, faz às vezes de um mantra benfazejo, ou de urna oração hippie em desuso, ou de urna maneira de viver fossilizada pelo ritmo frenético da vida digital que nos tira o descanso e a paz:  Tudo é urna questão de manteria mente quieta/a espinha ereta/e o coração tranquilo".
     Desejo para mim e para os outros a mente quieta dos mansos, dos lúcidos, dos que interpretam as incoerências da vida entendendo suas contradições sem aceitá-las. Mente quieta nada tem a ver com sub- missão, É de serenidade que falo, pré-condição que elucida o caos e nos deixa no prumo da razão. Mente quieta para discernir, compreender e intervir sem oprimir-se. Mente quieta para estar bem e contagiar os outros com esse estado.  
     Desejo também a espinha ereta dos altivos, dos que não fazem concessões ao malfeito, ao logro, ao dolo. Quero manter sempre a dignidade das minhas convicções, e só transigir se for convencido pelas ideias e pelos fatos, nunca pela chantagem, pelo dinheiro, pelas vantagens espúrias, pelas conveniências. Que minha espinha mantenha-se sempre ereta para olhar meus filhos nos olhos, sem jamais sentir vergonha de mim. E quando eu errar, que ela esteja ereta inclusive para que eu reconheça que errei.
     Que a calma pulse em meu coração. Mas não a calma dos omissos, a falsa calma dos procrastinadores, dos que jogam o que é feio para debaixo do tapete. Quero a calma dos inquietos, dos inconformados, dos que têm a consciência limpa dos atos concretos. O bem acalma o peito. O coração tranquilizado pelo amor de urna mulher, pelo amor dos
meus amigos, pelo sentimento do mundo, corno diria Drummond. Por falar nele, termino esta crônica com os versos sábios do poeta: "Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome/você, meu caro, tem de merecê-lo/tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil/mas tente, experimente, consciente./É dentro de você que o Ano NOVO/ cochila e espera desde sempre."


   (Marcelo  Canellas – Diário de Santa MARIA, 03/01/2016)

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