terça-feira, 11 de outubro de 2011

EU AINDA CHEGO LÁ

       Estou repassando para vocês uma engraçada e interessante crônica da atriz Ingrid Guimarães sobre os nossos problemas com o tempo. Leia, vale pela fundo de realidade.                                                          

        Sempre achei que ser mulher requer muito tempo. Primeiro, porque gostamos de coisas que tomam nosso tempo: se arrumar, conversar, cuidar, falar e amar. Quantas vezes perdi uma tarde inteira numa liquidação, uma noite ouvindo o desabafo de uma amiga e horas e horas falando sobre o amor ou simplesmente amando? Porque a gente, quando tem uma noite de amor, só quer falar disso nos dias seguintes. Arrumar também detona tempo. Arrumar a casa, a obra, a vida, a si mesma. Sem falar nas horas pagas que gastamos na terapia. Depois de se arrumar, a gente sempre acaba cuidando de alguém: de cachorros a filhos, passando por maridos e avós. Meu pai dizia que só queria filhas mulheres, porque mulher tem dom de cuidar. Ele teve três filhas, que cuidaram dele até o fim, e a saga continuou com cinco netas, que certamente vão cuidar dos pais.
            Tem outra coisa que engole o tempo e que mulher faz muito bem: pensar.
      "O Carlos estava tão esquisito hoje, tenho que deixar dinheiro pra feira, estou envelhecendo, saudades da Paulinha, é aniversário da vovó, vestido lindo, minha unha está péssima, meu  pai não está legal, preciso malhar,  que mundo violento, como o tempo passa, Maria se separou, vou ligar pra ela, preciso falar sobre isso na terapia, amanhã tem pilates. "
          Pensamentos gastos numa noite acordada, numa rua engarrafada ou na esteira suada. Ou, enquanto pega  e-mails, ela manda uma mensagem de texto e entra no Facebook. Não acho que mulher faz dez coisas ao mesmo tempo por insanidade, e sim por necessidade. Para ganhar mais tempo para si e para o outro.
          E, quando a gente acha que está ganhando do tempo, vem marido e filhos e um monte de teorias: de que o casamento tem que ser regado todos os dias (o que detona tempo e paciência), e isso significa transar com ele pelo menos três vezes por semana, ser romântica, ficar bonita e conversar.
         Outra teoria muito usada e incentivada pela culpa é de que o filho tem que ter atenção absoluta, caso contrário cresce inseguro (nessa teoria, vai toda uma vida).
A última e mais cruel teoria é de que conquistamos um mercado de trabalho machista e competitivo, portanto a hora de trabalhar é agora, porque o mercado é cruel com os mais velhos e é preciso se reinventar a todo o momento. (Aí, se perde, além de tempo, toda a calma interior que nos resta.)
       Como amar os filhos, transar com o marido, trabalhar o dia inteiro, malhar, se cuidar, organizar a casa, trocar a babá e se reinventar em 24 horas?
         Se for só mãe, não vou me sentir realizada profissionalmente! Se for workaholic, vou ser péssima mãe!
Se não me cuidar, meu marido vai me largar! Se não organizar a casa, ela não anda! Se me preocupar demais, pode prejudicar a saúde! E, para ser saudável, tenho que viajar e relaxar! Mas organizar viagem toma tempo!!!!!  Ainda sobram os amigos e a família.
      De vez em quando, penso que, se o dia tivesse mais quatro horas, metade dos meus problemas estaria resolvida. Sobrariam mais uma hora pra minha filha, outra para mim e as outras duas para ir ao cinema com meu marido (filme de três horas está fora dos planos). Ainda faltariam mais uma horinha de sono, outra para fazer um check-up, ler um livro e pensar na vida.
        Todo dia, faço uma listinha do que tenho que fazer no dia seguinte, ao longo do dia vou riscando meus compromissos com orgulho de um atleta batendo seu próprio recorde. Ao fim do dia, quando a listinha está toda assinalada, sinto um prazer quase sexual em saber que eu consegui cumprir tudo. Pego uma folha branca e recomeço a minha luta do dia seguinte.
         Tenho também uma lista paralela, que fica guardada, essa sem tempo estabelecido, para quando tiver tempo. Nessa, se incluem coisas como; arrumar armários, doar roupas, organizar fotos, ler livros, meditar, trocar o sofá, consertar a bicicleta, fazer um curso e aprender uma receita. Essa lista existe há anos, e todo ano renovo, colocando mais um item: ter mais tempo. Às vezes, engano o tempo fazendo "a prova do ou". Ou vou à ginástica ou durmo, ou levo minha filha à escola ou à natação, ou vou visitar minha mãe ou minha irmã. Ou durmo ou namoro. E perco um tempão escolhendo o que é melhor para aproveitar o tempo.
        A gente reclama que não tem tempo, mas esquece que, há pouco tempo, a gente tinha que ir a um orelhão para telefonar, parar para escrever uma carta, levar ao correio e esquentar uma comida na panela. Hoje, o celular, a internet e  micro-ondas encurtaram o tempo, e eu tenho a sensação de que tenho menos tempo ainda.
          A vida se tornou barulhenta. Às vezes, tenho saudade de gastar tempo com o silêncio, de ouvir uma música inteira, de não ter que fazer nada, de ter tempo para tristeza, de não ter caneta para anotar meus afazeres, que eram apenas afazeres. Tempo para ser complexa. Para chorar e me recuperar sem ter que colocar uns óculos e sair correndo. Eu desligava o celular e desligava a mim. Hoje, se quiser me desligar, nem sei mais onde fica o botão. Não tenho mais tempo para sentir o tempo. Talvez porque a gente tenha se ocupado demais para suprir nossos desejos que a gente nem tem tempo de saber quais são. E hoje a frase que mais repito : "Não dá tempo".
          Porque será que na infância a gente não pensava no tempo? E, na adolescência, a gente queria que ele passasse rápido? Por que será que os homens só pensam no tempo quando aparecem os cabelos brancos?
         Mas eu queria saber mesmo é quem inventou que  o dia tem só 24 horas? Quem fez essa conta errada? Algum homem, é claro, casado com alguma mulher que consegue cumprir sua listinha todos os dias.  

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