terça-feira, 27 de outubro de 2015

A DOR DO OUTRO


 Tirar o foco do próprio umbigo e perceber o sofrimento de quem está ao nosso lado tem poder transformador: nos leva à reflexão e ainda joga luz sobre nossas questões.
                                                                             IRACY PAULlNA
     Sabe quando nos olhamos no espelho para ver se a roupa ficou boa? O reflexo gera uma reflexão sobre o visual - que pode ser mudado ou mantido. Com nosso estado de espírito, o processo é semelhante. Às vezes, precisamos que um fator externo revele nossos sentimentos e nos leve a avaliar a vida. Um livro tem esse efeito, assim como um filme, mas, às vezes, é a dificuldade vivida por alguém próximo que causa o impacto. "Toda evolução pessoal acontece com base na troca. Ao olharmos para fora, damos de cara com o diferente e com a possibilidade de sermos melhores", afirma a psicoterapeuta Adelsa Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Psicodrama de São Paulo. O meca-nismo é simples: ouvir outro ponto de vista ou presenciar um jeito distinto de se comportar desencadeia questionamentos internos. É preciso estar aberta a essa interação, trabalhar a empatia. Ainda que sua história não seja igual à da ou- tra pessoa, há algo que as une. ''As ferramentas de superação costumam ser as mesmas, como persistência, coragem, senso de humor. E podemos aprender com alguém como lançar mão delas", explica a psicóloga Márcia Orsi, do Instituto Terapia Sistêmica, de São Jo- sé do Rio Preto, interior de São Paulo. Ao acompanhar o processo de cura do outro, você também inicia uma revo-lução interna. As histórias a seguir mostram como o exercício pode ser transformador.
             
"O suicídio do filho de uma amiga me aproximou da minha família"
      A assistente social Eroni Bóbbo da Silva, 47 anos, de São Francisco do Sul (SC), ex-
perimentava as preocupações típicas de uma mãe de dois adolescentes quando recebeu a ligação de uma amiga desesperada. O filho dela, com apenas 21 anos, tinha se suicidado. "Guardei minhas dores em uma gaveta e corri para ela", lembra. Eroni assumiu toda a parte burocrática do sepultamento. Depois, passou a visitar a amiga todos os dias e ajudou até a tocar os negócios da família. Elas tomavam café e almoçavam juntas. O filho da assistente social era muito amigo do menino que morrera. Cresceram juntos, tinham a mesma idade e até o mesmo nome. Ainda nos primeiros dias do pesadelo, sem conseguir
dormir, Eroni sentiu uma onda de gratidão por ter os filhos ao seu lado, saudáveis.
''A partir daí, mudei meus valores", assegura. Ela reduziu a caótica jornada de trabalho para desfrutar mais os momentos em família. "Retomei aquilo que sempre gostamos de fazer e que havíamos deixado de lado por falta de tempo, como ir ao cinema e viajar para o sítio dos avós. Também passei a dizer 'eu te amo' todos os dias", conta. "O ritmo frenético era uma tentativa de proporcionar conforto e bens materiais a eles, mas percebi que o mais importante é partilhar o amor", conclui. Embora hoje vivam em cidades diferentes, as amigas se veem com frequência e estão programando uma viagem.

“A mãe de duas crianças especiais dependentes dela dela me ajudou a valorizar minha rotina.”
     Por morar em Campinas e trabalhar na capital paulista, a representante comercial Karina Ferreira, 37 anos, vivia reclamando. Qualquer um que perguntasse a ela se estava tudo bem ouvia a mesma resposta: "Muito cansada". Ao se tornar voluntária da entidade social Unidos pelo Próximo, porém, a reclamação calou. Ali, conheceu Raquel, 49 anos, mãe de duas crianças especiais totalmente dependentes dela. Acompanhando o esforço daquela mãe para superar tantos desafios, Karina ajudou-a a construir uma rampa em casa para facilitar a circulação dos meninos e conseguiu um padrinho para eles que custeia todo mês as fraldas de que necessitam. As duas se tornaram grandes amigas. Diante de uma realidade tão dura, Karina ficou mais consciente da sorte de ter um filho independente e conseguir trabalhar. "Comecei a dar valor às pequenas coisas e a ser mais empática. Também aumentou minha motivação para realizar as atividades diárias e aproveitar melhor os meus dias", resume. Ela continua cumprindo longas jornadas, mas já não abre mão de encontrar os amigos ou de sair com o marido. "Precisamos aproveitar a vida", diz ela.

"Superei o luto ao conviver com outras viúvas.”
     Há dois anos, Gysele Godói de Oliveira, 55 anos, diretora de escola em São Paulo, perdeu o companheiro com quem vivera durante 26 anos. "Eu me vi completamente sozinha", afirma. Com a única filha já adulta e independente, o casal fazia tudo junto. Seu principal hobby era viajar. "A solidão me deixou desesperada", lembra. Ela então procurou ajuda na terapia. "Fui aconselhada a olhar à minha volta, obser- var quem passava por situações semelhantes." Uma amiga, por exemplo, além de ter perdido o marido, herdara dele muitas dívidas. "Fomos nos aproximando e cheguei a ajudá-Ia financeiramente até que ela se reestruturasse, cortasse alguns gastos e pagasse as contas mais urgentes'" conta a educadora. "Em um primeiro momento, saíamos para conversar sobre os problemas. "Sem conhecer a extensão da dor humana, não sabemos dimensionar quão felizes somos nem aprendemos a lidar com o que nos parece difícil", aponta a psicoterapeuta Adelsa Cunha. Depois, combinamos de mudar o foco, falar de assuntos menos sombrios . conhecer pessoas", diz. Era o toque de que Gisele precisava. Aos poucos, ela conseguiu forças para se recuperar da solidão. "Vi que muita gente estava viajando sozinha e conseguia se divertir. Resolvi me dar uma chance", conta.No começo, sentiu falta do marido, mas foi relaxando. "Hoje, já lido melhor com a situação", admite. O teste de fogo aconteceu há seis meses quando embarcou sem acompanhante em uma excursão que passaria por Paris, Veneza e Grécia. "Tive uma sensação de continuidade,  como se a vida estivesse seguindo seu caminho correto. E fiquei tão amiga da moça com quem  dividi quarto que já estamos planejando a  próxima aventura juntas", afirma Gysele.

‘Uma pessoa com limitações me fez mudar os hábitos de saúde"
     A nutricionista Beatriz Laus, 49 anos, nunca foi muito de reclamar. Catarinense radicada na Holanda com o marido e os dois filhos, ela levava a vida sem nenhuma grande exaltação até começar a fazer trabalho voluntário para a ONG Huvo, que oferece o serviço de passeador de cachorro para quem, por algum motivo, não pode sair com o próprio pet. Por mais de seis meses, Beatriz teve como cliente Susan, 30 anos, vítima de um acidente vascular cerebral que a deixou paraplégica. Toda manhã, a própria Beatriz
abria a porta da casa com a chave que havia recebido de Susan, colocava a coleira na cocker spaniel Moon e a levava para dar uma volta de 30 a 45 minutos. "Conversava pouco com Susan, mas dava para ver que Moon era a alegria de sua vida", lembra a nutricionista. "Depois do nosso encontro, dei mais valor a tudo que tenho, especialmente minha saúde", conta Beatriz, que repetiu o trabalho com outras pessoas atendidas pela ONG. Ela reforçou os cuidados com a alimentação e adotou um cardápio mais saudável.
Também passei a ser mais rigorosa com hábitos nocivos ao corpo, mesmo os pouco frequentes, como a ingestão de bebidas alcoólicas. "Liberdade, tempo e aptidão física são bens imensuráveis. O contato com Susan tornou essa percepção mais palpável", explica. "Comecei à me valorizar, mesmo estando acima do peso, porque vi que tenho sorte por conseguir reverter essa situação", diz. Apesar dos ajustes que fez em sua rotina, Beatriz considera que a maior transformação foi interior: "Hoje em dia, mesmo quando as coisas vão mal, consigo ser consciente e encontrar algo a que ser grata".

“O sofrimento de umagarota vulnerável me levou a querer uma família.”
A baiana Mariana Silva, 35 anos, tinha uma rotina corrida. Casada e sem filhos, se dividia entre três empregos, trabalhando de domingo a domingo. "Eu perseguia a ideia de uma aposentadoria tranquila e esquecia que era preciso ser feliz no presente", conta. Como assistente social na Instituição Beneficente Professor Macedo, que atende crianças que moram na rua, conheceu uma garota de 11 anos e quis adotá-Ia. "Até então, eu nem pensava em ser mãe, mas o sofrimento dela me fez valorizar laços familiares", lembra. Mariana conseguiu a guarda provisória e resolveu engravidar para dar à menina um irmão. A casa ficou mais alegre. Ela matriculou a criança em uma escola particular e em cursos de natação e violão. "Tínhamos uma convivência tranquila e, com o tempo, ela pas-
sou a me chamar de mãe", recorda. Depois de um ano de processo, a família biológica
ganhou de novo a guarda da garota. "Percebi que os sentimentos dela se dividiam entre voltar para casa e a gratidão por mim, mas não queria vê-Ia assim. Então, conversamos e eu disse que entenderia se ela fosse embora", revela a baiana, que não teve mais contato com a menina. Ao mesmo tempo, o casamento de Mariana chegou ao fim. Em vez de desanimar, ela resolveu reorganizar sua rotina ao lado do único filho. "Não achei certo me vitimizar se assistia os outros passando por problemas tão maiores", afirma. Hoje, mantém
apenas um emprego e, mesmo com o orçamento apertado, garante que ganhou qualidade de vida. "Fico mais tempo com meu filho e passei a cuidar de mim: faço ginástica, saio para dançar com os amigos, encaro tudo com mais leveza."

Novo olhar
Mesmo que você não tenha uma história para se inspirar, é possível transformar o modo de enxergar os problemas.

1.Olhe ao seu redor. "Ao perceber que o que acontece conosco não é exclusivo, deixamos de nos vitimizar", observa a psicoterapeuta Maura de Albanesi, de São Paulo.

2.Trabalhe sua empatia, coloque-se no lugar do outro. Valorize a experiência alheia, por mais diferente que ela seja. "A sua dor não é a única", lembra Adelsa Cunha.

3.Aprenda a ouvir. "O outro deve sentir que pode dividir com você o peso de um momento difícil", afirma a psicoterapeuta Sâmara Jorge, de São Paulo.

4.Faça trabalho voluntário. "Além de ajudar o outro, é uma forma de tirar os olhos de si mesma", indica a terapeuta Márcia Orsi.

                    (Revista CLAUDIA, outubro de 2015)






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