domingo, 17 de julho de 2011

GERAÇÃO MEDICADA


            Fiz questão de reproduzir aqui uma entrevista com a escritora Lya Luft, e coloquei-a na íntegra, para não prejudicar o estilo desta mulher tão lúcida, perspicaz, observadora,  de visão clara e firme sobre a vida.
            Loira de radiantes olhos azuis, a gaúcha Lya Luft, de 73 anos, vem de uma cidade de colonização alemã, Santa Cruz do Sul. Foi lá que, em meados dos anos 40, a então menina Lya foi  cercada por um grupo de crianças que em torno dela dançavam e cantavam: "Alemã batata, come queijo com barata". O episódio, contado em seu novo livro, A Riqueza do Mundo, ilustra o valor - para o bem ou para o mal - que a diferença ganhou na vida de urna escritora que está longe de ser comum: do “bullyng” infantil meio torto, desencaixado do habitual, ao sucesso atingido já na maturidade. "Ás vezes, ser diferente dói: sei disso", escreve.
            Tradutora de alemão e inglês, Lya Luft começou a carreira literária aos 41 anos, com o romance As Parceiras (1980), e se tornou um fenômeno na casa dos 60, com o livro Perdas e Ganhos (2003), cujas vendas estão hoje em torno de 1 milhão de exemplares. 0 sucesso deixou todo mundo atônito, ela incluída. A resposta acabou sendo dada pelos agentes internacionais que a procuravam para comprar os direitos. Todos diziam, ela lembra, a mesma frase: "Parece que esta mulher escreveu para mim". A identificação, curiosamente, vinha do testemunho dessa vida incomum, marcada (para o mal) pelo sofrimento da dupla viuvez e (para o bem) por um novo casamento na maturidade, com um saldo de três filhos e sete netos. Uma tecnologia de sofrimento ímpar, mas também um capital de afeto sem preço.

O que é a geração medicada que você menciona no livro?
Parece que achamos as pílulas da felicidade, estamos dando antidepressivo para crianças hoje em dia Por qualquer coisa, saímos do médico com uma receita de antidepressivo nas mãos. Às vezes, é preciso, claro. Tomei quando fiquei viúva pela primeira vez (em 1988, do escritor e psicanalista Helio Pellegrino. Depois, Lya se casaria pela segunda vez com Celso Pedro Luft, com quem tinha tido seus três filhos, anos antes). Mas eu nem saía da cama! Hoje não, tudo está banalizado. Não tenho nada contra remédios para dormir, nem contra cirurgia plástica, já fiz uma há 20 anos. Mas tudo isso se banalizou. Tomamos remédio para dormir, para acordar, para trabalhar, para descansar, para transar.

Por que ficamos assim?
Em parte, porque nossa vida é muito estressante, competitiva. O homem quer ser O mais poderoso, e a mulher, a mais jovem e mais sexy. Temos que ser lindos, magros, temos de subir na empresa. É duro enfrentar a vida moderna no osso do peito. E esse mesmo desejo de conforto faz com que as pessoas se droguem - porque remédio é isso, e como todas as outras drogas: serve para anestesiar ou para dar ânimo. Nós substituímos a filosofia de vida pelas pílulas. Se você não para pra pensar em sua própria vida, você vai se atordoando.

Mas qual é a saída, já que a vida se tornou estressante a esse ponto?
Não acredito mais em grandes reformas sociais, acredito em trabalho de formiguinha. Acordar de manhã e pensar se precisa mesmo dos remédios. "Eles estão me fazendo bem ou estou vivendo superexcitado? Estou vivendo superanestesiado?" Minha questão é contra a banalização. Muita gente toma remédio só porque a amiga toma. É preciso saber nadar contra a corrente.

Isso tem a ver com o "espírito de manada" que você menciona nos livros? Como ele se manifesta hoje?
Sim, sempre existiu, mas hoje está mais forte essa ideia, bem adolescente, de pertencer àquela tribo, àquele clã. Seguir as modas é uma coisa muito confortadora num mundo belo e cruel, com as gigantescas opções de uma vida cheia de TV e computador. Muitas vezes - na educa<;ao dos filhos, por exemplo -, é preciso se desligar do espírito de manada, o que é muito assustador. Não se enquadrar exige certa coragem.

As perdas fizeram grande parte de sua vida. Depois de certa idade, aprende-se a lidar melhor com elas?
Não existe receita para nada: tem gente que fica infantilizada até os 5O, tem gente que fica velha com 20. O que eu acho É que, na hora do sofrimento, tem de sofrer. Fico inquieta quando vejo alguém perder um filho, o marido, e todo mundo em volta dizendo: "Reage, não fica assim, não chora". Como não? Tem que chorar. Uma vez, uma jovem me ligou dizendo: "Lya, conversa com a minha mãe? Ela ficou viúva há 15 dias e só chora em cima da cama"."Faz 15 dias? Eu respondi: "Ela não deve estar chorando em cima da cama, ela deve estar chorando embaixo da cama!". É a hora de sofrer, mas a gente tem horror ao sofrimento. O melhor jeito de lidar com a perda é perder: você tem que aceitar. Com o tempo, se você não entrar numa psicose de luto - e aí, sim, só com ajuda e remédios -, a vida chama devagarinho. 

O que chamou você de volta da depressão?
Meus filhos. Quando fiquei viúva pela primeira vez, eu morava no Rio de Janeiro, tinha 49 anos e estava
casada havia pouco mais de dois anos. Voltei para o Rio Grande do Sul, meus filhos já eram jovens adultos e eu estava muito mal, precisava praticamente que me dessem comida na boca, meus amigos, amigos do meu marido ... Pensei: "Eles não têm culpa. Eles já estão tristes por ter perdido um amigo, meu marido, precisam cuidar de mim e eu não posso ficar um trapo o resto da minha vida". Aos poucos, fui reagindo, vi o valor dos afetos. Passei a dormir de cortinas e persianas abertas, para ver a mudança da claridade, o dia nascendo. "O mundo ainda existe", pensei. Sou uma pessoa que gosta da vida, sou mais uma hedonista do que uma sofredora. Acho que, com a maturidade - não sei se estou no começo da velhice ou no apogeu da maturidade -, você vai ficando mais esperta...

Como?
Você conhece seus próprios macetes. Eu me divirto mais agora. Uma vez, perguntaram para a Tônia Carrero, na minha frente: "Como a senhora lida com a velhice?", E ela respondeu: "Não tem o que fazer, a alternativa é a morte". O bom humor é muito importante. Meu compadre, Érico Veríssimo, sempre me dizia quando eu era jovem: "Um dia você vai entender que, às vezes, o humor é mais importante que o amor".

Depois de tantas perdas, como você lida com a necessidade cotidiana da figura do homem?
 Não tenho necessidade da presença masculina, fiquei muitos anos sozinha. Quatro anos depois de ficar viúva pela primeira vez, voltei a me casar, em 1992, com o pai dos meus filhos, Celso Pedro Luft. Menos de um ano depois, ele teve um AVC e virou meu "quarto filho", virou um bebezão durante três anos, e entãu faleceu. Vivi muitos anos sozinha e bem, embora não ache que o ser humano tenha nascido para ser sozinho. A vida dividida numa relação legal é enriquecida.
Sua visão da presença masculina sempre foi muito positiva, não?
É verdade. Meu pai era muito legal, provavelmente a pessoa mais influente da minha vida. Meu primeiro marido era uma pessoa que também me deu muita segurança quando eu era muito tímida. O que eu acho É que a sociedade cobra muito dos homens, sou solidária a eles. Eles têm de ser fortes, ter barriga tanquinho, muitos cartões de crédito, ser competitivos, ser incríveis na cama, com toda essa fantasia que se faz sobre a vida sexual dos casais de que se deve transar todos os dias, tendo mil orgasmos. E é tudo mentira: as pessoas nunca transaram tão pouco e tão mal.

Por que?
Um pouco pelo excesso de medicação, um pouco porque, se você começa a ver o que esperam de você, você sai correndo! O sexo devia ser mais natural e mais alegre.  O sexo, o amor, o carinho devem ser um refúgio desse mundo atrapalhado em que vivemos, em que corremos o tempo todo. Hoje, não é mais o pai que chega cansado depois de um dia de trabalho. É o pai e a mãe que chegam cansados, num estresse brutal. Como resolver essa nova vida, esses novos casais, a família mudando? O papel do homem ficou ai no meio. Acho também que temos certa tendência a ridicularizar os homens, não gosto disso. Essa coisa das minhas avós, "os homens são todos iguais", "os homens só pensam naquilo". Essa visão do homem como desprezível é muito triste, mas acho que ainda existe. "Os homens estão com medo dessa nova mulher." Os bobos podem até estar com medo, mas os outros acham interessante, porque, em vez de ter em casa mais uma criança, têm uma parceira.

O casamento muda quando se é mais maduro?
 Sim, quando você embarca numa relação numa certa idade, você tem que conversar sobre coisas muito reais, aceitar o outro com suas manias (desde que não a incomodem), com sua bagagem emocional: são pessoas que já viveram, casaram, descasaram, tiveram filhos. É uma mistura de tolerância, camaradagem e bom humor. Casamento ou é muito bom ou é um porre. Casamento mais ou menos não pode existir.  

                              (Por Luísa Dalcin, revista LOLA, nº 10, julho de 2011)

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