segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

É O FIM DO HOMEM ?

    Polêmico livro lançado nos Estados Unidos diz que sim - ou, pelo menos, seu poder estaria com os dias contados - e o mundo agora seria das mulheres. Experts discutem se isso é mito ou verdade
MARIA LAURA NEVES

Imagine-se presidente de uma grande multinacional, à frente de uma poderosa diretoria maciçamente feminina. Depois do expediente, você cursa uma especialização e só dá mulheres nos corpos docente e discente. Ao chegar em casa à noite, seu marido comenta que acabou o iogurte das crianças e a geladeira está vazia. Cansada, você diz que deixará o cheque para que faça as compras, já que ele sai mais cedo do trabalho. Segundo a jornalista americana Hanna Rosin, esse cenário, que parece utopia feminista, é uma realidade bem próxima da que vivemos hoje e será 100% verdade para nossas filhas - e filhos. No livro The End of Men and The Rise of Women (O fim do homem e a ascensão das mulheres), ainda não publicado no Brasil, ela defende que, após séculos de dominação masculina, o poder será das mulheres.
Segundo Hanna, isso ocorre porque estamos mais aptas do que os homens a responder às demandas da nova economia, baseada nos serviços. Somos mais qualificadas - 60% dos formandos nas universidades brasileiras são mulheres - e temos habilidades valorizadas hoje, como facilidade para a comunicação, versatilidade e capacidade de conciliação.
A jornalista baseou sua teoria na constatação de que a maior parte dos empregos nos Estados Unidos afetados pela crise econômica estava em setores predominantemente masculinos, como a construção civil e o mercado financeiro. E a necessidade de ganhar a qualquer custo e o gosto pelo risco, traços típicos do comportamento do homem, teriam sido decisivos para a bancarrota. Seria uma prova da falência do modelo de gestão do macho agressivo.
A nova configuração da divisão do trabalho e do poder levaria a uma crise da masculinidade e transformaria também o modo como homens e mulheres convivem na intimidade. Hanna diz que americanas de classes sociais mais baixas já estariam abandonando o marido por acreditar que ele mais atrapalha que ajuda (só 3% topam cuidar da casa e dos filhos enquanto elas trabalham). Já as ricas estariam em casamentos mais completos e equilibrados, dividindo com o parceiro a responsabilidade dos afazeres domésticos. A tese gerou muitas críticas. Por exemplo, nós ainda ganhamos menos do que eles na mesma função. Quatro especialistas incrementam o debate.

Esquecido e desfavorecido (Martin Van Creven)
"Esta não é a primeira vez que uma recessão coloca as mulheres no papel de vencedoras e os homens assumem o de perdedores. Em 1848, o filósofo alemão Friedrich Engels escreveu que, em tempos de crise econômica, os homens pobres ficam em casa e as mulheres saem para trabalhar. Durante a Grande Recessão da década de 1930, elas entraram no mercado de trabalho porque muitos foram demitidos. Então, essa discussão tem pelo menos 160 anos. Acredito que a atual crise vai passar e que não estamos diante do 'fim' do homem. Ocorre que, quando o mercado está mais cauteloso, a maneira feminina de agir realmente é mais valorizada. Em geral, os homens são mais adeptos do risco. Mas, no final, como o capitalismo é movido pela ambição e pelo gosto ao risco, penso que quem chega ao poder  é - e tem de ser - mais agres-sivo e competitivo. E os homens são melhores do que as mulheres nisso.  
De qualquer forma, não é fácil ser homem (mas não estou querendo dizer que é fácil ser mulher!). As estatísticas mostram que eles ainda trabalham mais horas do que elas. Os postos mais perigosos, sujos e pesados são ocupados por eles. Para ter uma ideia, cerca de 90% das mortes em acidentes de trabalho nos Estados Unidos são de pessoas do sexo masculino. Eles também são as maiores vítimas de crimes violentos e vivem menos do que as mulheres. Homens têm um custo de vida menor, mas pagam mais impostos. E, mesmo assim, recebem menos benefícios do governo. Quais países oferecem direito à licença paternidade? Homens não amam os filhos menos que as mulheres, mas as leis do divórcio são favoráveis às mães em muitos países. O pai que se separa e consegue a guarda dos filhos é exceção. São todas questões já antigas, e eu ficaria surpreso se fossem resolvidas. Talvez isso aconteça em um mundo gerido por mulheres - o que não acredito que vá acontecer."

Novo sexo frágil (Luiz Cuschnir)
"Não acredito no 'fim' dos homens, mas em uma crise da masculinidade que começou há anos e ainda não foi resolvida. À medida que o poder foi deixando de ser exclusivamente masculino, eles passaram a se dedicar mais aos filhos e à casa e a prestar atenção nos próprios sentimentos. Aí se assustaram e se amedrontaram com a própria fragilidade. Ficaram perdidos e deprimidos. A ascensão feminina continuou, abalando cada vez mais a auto estima dos homens, porque a masculinidade se confirma pelo poder e pela vitória. Se as mulheres tomam a dianteira de tudo, eles não sabem o que fazer. Outro ponto que fragiliza é que os homens perderam espaço no mercado, mas não se afirmaram completamente em casa. Por exemplo, quando se dispuseram a se aproximar mais dos filhos, encontraram resistência. Raramente a mulher quer mesmo dividir o poder dentro de casa. Qual de vocês nunca criticou o marido por não dar banho ou vestir o filho do jeito certo quando ele resolve fazer isso sozinho? A atitude deixa o homem desestimulado e o paralisa. Porque não há jeito certo de cuidar dos filhos ou da casa. Existem jeitos diferentes. Homens e mulheres precisam aprender a dividir o poder, dentro e fora de casa."

Era de igualdade (Marl Justad)
“Discutir o “fim” do homem e a ascensão da mulher da maneira como propõe a teoria de Hanna  não acrescenta nada ao debate da igualdade de direitos. O machismo se baseia na noção da superioridade inata do homem e nas diferenças absolutas entre os gêneros, que nunca foram  comprovadas. Sugerir uma nova era em que o  poder e as regras serão invertidos é se basear nas mesmas  premissas do machismo. A maioria dos americanos acredita que homens e mulheres são iguais. Suspeito que há pessoas interessadas apenas em colocar fogo na guerra dos sexos porque iisso vende livros.
Analisando as mudanças apontadas pela autora, o que vejo, na verdade, é um novo período, em que homens e mulheres terão a mesma autonomia. Penso que a crise da masculinidade exista  apenas entre os homens que não aceitam que a mulher ganhe mais ou tenha mais prestígio  que eles. Não acho que se trate de uma crise generalizada, e sim de uma aflição que atinge somente aqueles que  ainda não se adequaram a uma era de igualdade. Não estamos mais em uma guerra entre uma guerra entre os sexos. Isso é resíduo de uma mentalidade masculina estreita, criada  por uma ideologia patriarcal, da qual alguns têm dificuldade de escapar. Considero importante ressaltar que as questões que prejudicam homens negros  ou gays não estão contempladas nesse tipo de discussão. O segundo grupo, por exemplo, desafia o conceito de masculinidade há  décadas e nada foi dito sobre isso."

Longa Jornada  (Nina Madsen)
"Não estamos nem perto de presenciar o “fim” do homem no Brasil. Estudos mostram que a velocidade da participação feminina em espaços predominantemente masculinos vem diminuindo da década de 1990 para cá. A escalada das mulheres a postos de poder foi intensa entre os anos 1970 e 1980, mas, depois, o ritmo diminuiu. E nós ainda ganhamos 70% do salário deles.
Além disso, nossa ocupação do mercado de trabalho não levou a alterações na divisão das responsabilidades em casa e dos serviços domésticos. Isso continua em nossas mãos. Mulheres gastam cerca de dez horas semanais com tarefas da casa, enquanto os homens utilizam apenas uma hora com isso. A vida deles não mudou nada com nossa entrada no mercado de trabalho ou nossa ascensão a postos de poder. Mas nós ficamos mais sobrecarregadas. Outro ponto é que, diferentemente do que ocorreu nos Estados Unidos, por aqui a crise econômica de 2008 abalou mais as mulheres que os homens. Um estudo do governo federal mostrou que, no Brasil, o emprego delas foi mais afetado que o deles. Um detalhe é que, quando um homem perde o trabalho, ele se mantém no mercado na categoria de desempregado. Quando é com a mulher, ela volta para casa e sai do páreo. Não vejo nenhum grande avanço."

(Revista CLAUDIA,novembro de 2012)

sábado, 9 de fevereiro de 2013

PARA ONDE VAMOS?

    O psiquiatra Flávio Gikovate diz que o cotidiano  hoje é  marcado por egoísmo, vaidade e compras. Por PATRÍCIA  ZAIDAN 
    
    Por quatro horas, o psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate e o filósofo Renato Janine Ribeiro falaram sobre a vida nestes tempos de vaidade e alto consumo. O resultado está no livro Nossa Sorte, Nosso Norte (Papirus 7 Mares), que sairá em DVD. Gikovate, que já publicou 25 títulos, tem programa na Rádio CBN e chegou a participar da novela Passione, comenta dilemas atuais.

 Por que as pessoas têm hoje tanta necessidade de ser vistas e de comprar coisas?
Esse é um dos graves reflexos da revolução sexual. Achávamos que a liberação desarmaria os seres humanos, traria democracia, já que todo mundo transaria com todo mundo. Mas virou uma corrida para chamar a atenção do outro. Cresceu a busca pela aparência física, que é amiga íntima do consumismo. Os hippies só queriam amor, sexo, paz e aconchego. Nada parecido com auto erotismo e exibição no Facebook.

E o Facebook atiça a inveja.
 E mexe com a frustração. Estar ali é como ser dono de uma revista de celebridade que publica as próprias notícias. Você vai à praia e põe lá. Compra e posta. Quem não foi e não tem baba. Olhar a vida alheia gera tensão. Não traz felicidade.

Como está a família?
Há muito egoísmo. Gosta-se dela desde que se possa receber mais do que dar. As alianças são feitas entre o generoso e o egoísta. Mas quem só dá anda cansado desse papel. O desafio é equilibrar, alternar.

Por que trabalhamos tanto?
 A vida está mais longa, precisamos de mais dinheiro para custeá-la. Além disso, profissão virou identidade. Você conhece alguém e já quer saber o que ele faz. Nem pergunta se ele ama, se tem filhos, um lazer ... O que é ruim. O Renato diz que não haverá emprego para todos e que trabalharemos três dias por semana para sobrar vaga para os outros. E, na folga, cultuaremos o prazer.

Mulheres se queixam de assumir tudo em casa. É irreversível?
Elas não voltarão a lidar com a casa e continuarão crescendo na carreira. O homem, cada vez mais folgado, mudará. Ele se acomoda pelas facilidades eróticas. Não precisa mais fazer força para ter sexo: chega e leva. O momento é de encrenca geral. Mas minha futurologia é otimista. Estamos em transição: o homem crescerá, se envolverá com casa, filho ... Será bom para todos.

 (Revista CLAUDIA - dezembro 2012 )

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A MANADA É PRA LÁ

   Tem gente me acusando de esnobismo porque não tenho Facebook e Twitter, nem gosto de bater perna no shopping ou tagarelar ao telefone. Esse é o problema: ir contra o senso comum hoje é considerado desaforo.
Por Martha Medeiros

 Vou manter o nome dele em sigilo, já que é um renomado cirurgião, mas vou delatar o crime: meu pai não tem celular. Em sua defesa, ele diz que pode ser encontrado no consultório ou em casa, esses dois telefones bastam, sempre bastaram. "Mas, pai, e se teu carro pifar no meio da estrada? E se te sentires mal durante uma caminhada na rua? E se te atrasares no caminho para buscar a namorada?" Ele é um homem moderno, aos 76 anos tem uma namorada, mas não tem celular.
    Eu ficava indignada por ele manter essa inacessibilidade. Parecia que ele estava querendo apenas ser diferente dos outros, e os diferentes sempre dão a entender que são mais evoluídos, que possuem uma sabedoria que nós, reles mortais, jamais conseguiremos atingir. Como ele pode prescindir de um aparelho imprescindível? Ora, imprescindível pra mim, pra você. Para ele, não é. Só então lembrei como também costumo ser patrulhada.
    Faz pouco tempo, uma amiga demonstrou uma irritação descabida comigo. Não entendi: "O que foi que eu fiz?". Ela disse que eu fazia isso só para me exibir. "Isso o quê, criatura?". Não conseguia adivinhar o que a magoava, até que ela esclareceu. "Você não tem Facebook nem Twitter para se sentir superior."
    Eu realmente não uso as redes sociais. Sei que tem Faces que divulgam frases minhas, e que há alguns perfis de pessoas que fazem de conta que sou eu, mas não sou eu. Não é para me sentir superior ou inferior: simplesmente não tenho tempo sobrando. Já é um esforço conseguir manter a caixa de e-mails razoavelmente atualizada, para que procurar mais encrenca na minha vida? Meu tempo ocioso é sagrado. Expliquei para minha amiga que não era nada pessoal, que ela relaxasse, mas aquele dia ela estava surtada pela TPM. O Face e o Twitter eram apenas os primeiros itens de uma longa lista que ela havia mentalmente preparado para me condenar à exclusão.
     "E quanto a não idolatrar a ajuda das empregadas, como qualquer outra mulher atarefada?" Não acreditei que estava tendo essa conversa. Lembrei que uma semana antes havia comentado que a hora mais feliz do meu dia era quando a empregada saía pela porta dizendo: "Até amanhã, dona Martha". É uma funcionária exemplar que está comigo há mais de 20 anos. Trabalha de segunda a sexta das 10 às 16 horas, e ainda vibro quando ela pede para sair mais cedo. Adoro escutar a porta batendo e a sensação de que estou sozinha em casa. Não me sinto confortável no papel de patroa. Jamais cogitaria que alguém trabalhasse para mim à noite ou aos sábados (já devo ter levado muita chibatada no tronco em outra encarnação). Preciso do serviço dela porque ainda tenho filhas morando comigo, um apartamento grande e tal. Mas chegará o dia em que, filhas no mundo e apartamento menor, ficarei no meu canto tomando conta de mim mesma. Minha amiga acha isso o cúmulo do esnobismo.
    "E sobre não gostar de bater perna em shoppping?" Ué, não gosto, é pecado? Vou quando tenho que comprar um presente ou quando preciso de algo específico, mas não me convide para uma tarde olhando vitrines. Experimentar roupas em cabine de loja me faz simpatizar com a morte.
     "Mas de dirigir você gosta, não gosta?"  Amo. "Mesmo com esse trânsito esquizofrênico?" Mesmo. "E vem dizer que não está bancando a diferente."
      Pelo andar da carruagem, eu sabia que a discussão iria acabar nos contos de fadas, e não demorou nada. Logo ela tirou da manga a vez em que contei que, quando menina, meu desenho animado favorito não era o da Gata Borralheira nem o da Branca de Neve. Sempre fui fã do Mogli. Minha amiga não se conforma até hoje. "Claro, a fanática pela vida na selva, a porta-estandarte da liberdade, só podia mesmo vibrar com um pirralho criado entre os bichos da floresta, sem pai, nem mãe, nem fada madrinha."
       Não resisti e, só para provocar, comecei a cantarolar a música do urso Balu: "Eu uso o necessário/ somente o necessário/ o extraordinário é demais/ o necessário/ somente o necessário/ por isso é que essa vida eu vivo em paz". Mogli me ensinou a diferença entre o dispensável e o vital, enquanto as princesas tentavam me empurrar goela abaixo que o certo era esperar (deitada e dormindo) pelo surgimento de um príncipe. Por pouco não caí nessa.
        Minha amiga tinha mais um item da lista que, segundo ela, me tomava um ser esquisito à beça. "E sobre viajar sozinha, quer me explicar?" Viajar sozinha é outra anomalia que ela não perdoa. "Não é possível que você goste. Confesse: você chora escondida no quarto do hotel. Ninguém pode considerar agradável senta num restaurante em Paris e conversar somente com seus botões."
      Bom, eu nunca escondi que me derreto por uma lua de mel: claro que a melhor coisa do mundo é viajar com o amor da nossa vida. Mas, se durante um período de entressafra, o amor da sua vida for apenas você mesma, vai ficar mofando em casa a troco de quê? Qual o problema de dar um giro por Roma, Nova York, Buenos Aires? Humm, já começo a ter ideias.
     O problema é que ir contra o senso comum é considerado um desaforo. Mulher tem que adorar falar ao telefone (detesto), tem que torrar o salário em bolsas e sapatos (prefiro colares e pulseiras), tem que ter lido e amado Cinquenta Tons de Cinza (há outras prioridades na minha mesa de cabeceira) e tem que sonhar em perder 2 quilos.
       Ufa, agora encontrei minha turma. Também sonho em perder ao menos 2.
       Todos nós somos diferentes e idênticos, dependendo do que se trata. Temos desejos e angústias parecidas, e desejos e angústias únicas. Uns são mais iguais que outros, uns são mais estranhos que os demais, e essa saudável miscelânea é que dá graça à vida. Não há mais sentido em falar em "rebanho", como se houvesse uma tribo hegemônica e o resto fosse periférico e marginal. Além do rebanho, há alcateias, cáfilas, cardumes, manadas, bandos variados que se frequentam  e se divertem mutuamente. Que ninguém se sinta ameaçado em suas convicções sobre o que é "normal". Tudo é normal, desde que não faça mal.  
        
                 (Revista LOLA, janeiro de 2013.)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013


TRÊS DÉCADAS SEM A ALEGRIA DE MANÉ
   Há exatos 30 anos morria Mané Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas 
  Ele nasceu Manoel Francisco dos Santos, mas foi imortalizado Mané Garrincha. Ídolo do Botafogo, da Seleção Brasileira, um dos maiores jogadores da história do futebol. Arisco, dono de dribles fáceis e impossível de ser caçado em campo – assim como o pássaro “Garrincha”, que inspirou o apelido com o qual se consagraria nos gramados. Gênio, craque, mito. São muitos os adjetivos para definir o talento do menino nascido em Pau Grande. Mané marcou a história do futebol e escreveu seu nome nos gramados, fintando adversários entre 1953 e 1972.

Uma vida curta e uma carreira eterna
   Colecionador de títulos e gols importantes, consagrado no Brasil e no exterior, em sua rica trajetória no futebol atuou em 718 jogos, com 283 gols marcados. Passou a maior parte da carreira jogando no Botafogo, clube que defendeu por 12 anos. Foi no Glorioso que viveu seu auge e ajudou a criar um dos maiores times da história alvinegra.   
   Pela Seleção Brasileira, ganhou os dois primeiros títulos mundiais do país, 1958 e 1962. No segundo foi responsável direto pela conquista. Em 61 jogos com a camisa amarelinha, Mané saiu derrotado apenas uma vez. Números expressivos que coroam e imortalizam a carreira de um jogador tão vitorioso.

O precursor do “futebol arte” 

  Pelo seu jeito irreverente de jogar futebol, com dribles desconcertantes e deboche aos adversários, Garrincha foi apelidado de “A Alegria do Povo”. O craque foi responsável, também, pela invenção da expressão “olé” no futebol, termo antes usado somente para Touradas. 
   No fim da carreira, Mané chegou a atuar por outros clubes. Com breves passagens por Corinthians, Flamengo e Olaria, o Rei do dribles encerrou seu ciclo no esporte.

“Aqui jaz em paz aquele que foi a Alegria do Povo”

   Com uma história brilhante dentro dos gramados, fora dele o Anjo das pernas Tortas não conseguiu driblar o alcoolismo. Em 20 de janeiro de 1983, vítima de complicações de uma cirrose hepática, faleceu aos 49 anos. No dia seguinte à sua morte, o poeta Carlos Drummond de Andrade, traduziu em palavras a dor alvinegra e de todos os amantes de futebol que, até hoje, reverenciam seu nome.
  “Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho”. 
                                                                                                                                      (Fonte: yahoo)
 
    Eu era menina quando a seleção brasileira de futebol venceu a Copa do Mundo de 1958  e lembro de toda a festa que se fez em torno dos jogadores , cujos nomes foram eternizados até em marchinhas de carnaval. Sei de uma escalação até hoje: Gilmar, De Sordi, Bellini, Zito, Nilton Santos e Vavá; Didi, Garrincha e Orlando; Pelé e Zagalo; por causa de uma letra de uma marchinha. E daí para a frente acompanhei pelas revistas, jornais (Alguém ainda lembra que na sessão do cinema local,  no domingo à noite, antes do filme passava um noticiário?), rádio, a façanhas do incrível jogador das pernas tortas  que fazia em campo o que faz hoje o Neymar e alguns outros endiabrados. Aliás, como o Mané não se diverte olhando lá de cima o que o Neymar faz e pensando em como seria bom se ele fosse o neto e herdeiro da sua magia especial com a bola!
    Garrincha é um exemplo daqueles casos em que uma pessoa nasce com um dom  para ser um rei no que sabe fazer, mas a falta de bom senso, do apoio adequado de alguém que tenha ascendência sobre ele,  faz com que o sucesso e os aproveitadores o levem para o caminho errado e à autodestruição.
      Deus esteja contigo Mané! Ensina os anjinhos a dar os fantásticos dribles que hoje eles chamam de "caneta", "elástico", ou sei lá o quê!... Tu já fazias isso por instinto!

sábado, 22 de dezembro de 2012

ETERNAS SÃO AS NUVENS

Hilda Lucas

     Os relacionamentos acabam, mas tudo o que você viveu com a outra pessoa não. E para onde vai esse acervo afetivo? Para onde vai o conhecimento intransferível que se tinha do outro? Ah, vai para o weCloud, uma nuvem etérea que armazena o sumo da absoluta intimidade que vocês tiveram.
  
    Para onde vai tudo que se vive? Para onde vai a mágica de certos instantes? A comunhão que se viveu, a cumplicidade de dividir tempo, espaço, experiências inaugurais? Para onde vão o carinho, a parceria, a entrega? Para onde vai o conhecimento, pessoal e intransferível, que se tinha do outro? Para onde vai o que só vocês viram e experimentaram: o nascimento de um filho, a morte de um amigo, a noticia daquele emprego, o assalto, a compra da casa, o diagnóstico ameaçador, a noite no acampamento, aquele show em Londres? Para onde vai a consciência que você tinha de, com apenas um olhar, saber se ele estava feliz, deprimido ou ansioso?Para onde vai a absoluta intimidade que se teve com o outro?
   Acredito que isso tudo fica em algum lugar interno, como um site, uma espécie de nuvem onde armazenamos tudo o que vivemos. Tão reais e etéreos como o iCloud, temos os nossos weClouds, que podemos acessar ou que nos acessa, algo que fica preservado, e que, mais do que nos fazer lembrar coisas, nos acolhe e ratifica. O weCloud guarda o essencial, o que ficou depois da ruptura, da tempestade, o rescaldo de um tempo, um a dois permanente, que sobrevive aos acordos rompidos, às bênçãos desfeitas, às juras esquecidas. No weCloud, ficam o sumo, o substrato, a força do projeto um dia com partilhado. No weCloud, ficam o afeto espontâneo, o registro das intenções sinceras, da vontade de acertar e de tudo o que foi verdadeiro.
   Os relacionamentos podem acabar, mas não o vivido. Não se trata de memória, nem de "detalhes tão pequenos de nós dois". Não se trata de viver no passado, nem de não aceitar os fatos. Não se trata de sublimar dores e porradas ou se refugiar num mundo alegrinho de autoajuda e negação. Não se trata de dourar a pílula e contar para si uma história diferente. Trata-se de vida bem vivida que não pode nem deve ser perdida. Tudo o que vivemos e sentimos vira acervo, fonte, ferramenta; é nosso para sempre.
  Quando estamos com alguém, somos, em alguma instância, uma pessoa única, que só aquele companheiro conhece. Maria é para João uma Maria que ela nunca será para Pedro, que é um Pedro para Maria que nunca será o mesmo para Ana. Maria poderá ser muito mais feliz com Pedro do que com João, mas ela terá sempre sido a Maria do João e haverá
sempre um lugar onde Maria e João se reconhecerão, mesmo que nunca mais se encontrem.
   Somos o que vivemos, e não podemos abrir mão disso. É fundamental que cuidemos da nossa história, que saibamos acolher nossas experiências com generosidade e entendamos que certas vivências, emoções e descobertas foram únicas e estarão sempre produzindo algum efeito em nós.
   Todo fim de relacionamento pede tempo. Tempo para o luto, para a saudade, para a cura, para o distanciamento, para a neutralidade, para o recomeço. Existe um caminho a percorrer que vai do fundo do poço ao fórum, do desespero, ao terapeuta, da perplexidade à aceitação, do abandono à libertação. Há que fazer faxinas: roupas, livros, fotos, palavras mal ditas, mágoas, decepções. Há que separar papéis, propriedades, planos, sonhos. Há que separar, acima de tudo, o trigo do joio, o passado do futuro, o extinto do eterno. Há que guardar as coisas que não cabem em malas nem cofres, aquilo que não se quantifica nem se elenca em formais de partilha e declarações de renda Há que "amar o perdido".
   Só quem tem passado tem futuro. Escolher a bagagem que se carrega é decisivo para seguir adiante. Entre fardo e combustível, asas e correntes, você decide. Entre salvar e deletar, você decide. Conjugar sem medo o pretérito imperfeito para viver o futuro do presente.
  Depois de um tempo, as dores passam ... Sim, elas se cansam de nós e, se somos saudáveis, nos cansamos delas também, seguimos em frente, voltamos para nós mesmas, dispensando o que não nos serve mais, garimpando minúsculas preciosidades, recolhendo luminosidades, cheias de preguiça de sofrer, prontas para recomeçar, de novo, mais uma vez. Um belo dia você se pega pensando naquele "nós", que deixou de existir, sem a fisgada de saudade, nem ressentimento, nem raiva Você pensa com serenidade. Você pensa não mais no "ex", mas no companheiro de vida: sai o "ex", fica o antigo.
   É quando você o abraça no velório do pai e sabe como ele está se sentindo e ele também sabe que você sabe como ele se sente, e isso é muito Íntimo e confortante e está lá, na tal nuvem, para sempre.
   É quando você recupera em DVD seus filmes em Super 8 e fitas em VHS, com todas as fases e faces queridas da sua vida, e faz uma cópia para ele, pois que sabe que aquilo tudo é parte da vida dele também, e você se sente grata por compartilhar,
   É quando você recebe um presente sem cartão: um disco de vinil de um show que você foi com um certo namorado. Pronto, lá está o para sempre: os anos 70, a avidez de descortinar o mundo, a lalica, a revolução, o incrível mundo das primeiras vezes, compartilhado com entrega e inocência. O cartão é desnecessário, pois só você e ele sabem quem vocês eram naquele dia-tempo e o que significou está ali naquele concerto de rock.
   É quando você encontra numa caixa esquecida rolhas de Champagne e sementes de romã, que fazem você lembrar quem você era e como você se sentia quando estava totalmente apaixonada por aquele cara na Itália.
   É quando você escreve um livro sobre maternidade e manda em primeira mão para o pai dos seus filhos, porque ninguém mais do que ele sabe como você ficava quando estava grávida, pois só ele viu seu estado de graça e, talvez, antes mesmo de você, ele viu você virar mãe.
    Lá estão vocês, no weCloud, sócios de experiências transformadoras, parceiros de sonhos, realizados ou não, amigos que cresceram juntos, cúmplices dos pequenos crimes contra o amor, vitimas dos mesmos desgastes da convivência, ungidos por bênçãos comuns, coautores e personagens do mesmo livro.
    Maria não é mais a mesma que foi com João, mas, para ser a Maria que está com Pedro, ela teve que ser a Maria do João, e João, para ser o companheiro de Ana, teve que ser antes o de Maria. Somos o que nascemos e o que escolhemos viver, somos o que ganhamos, o que perdemos, o que boicotamos e o que nunca alcançamos.
    É muito libertador fazer as pazes com nossa história. Do que nos serve ter rombos na linha do tempo? Negar, bloquear, tornar inacessíveis as lembranças, impossibilitar um resgate saudável do vivido? Do que nos serve chamar ex-companheiros de falecidos ou equívocos? É injusto conosco. É empobrecedor. Temos essa mania de achar que só o que dura para sempre é um sucesso. Durabilidade nunca foi sinônimo de segurança, assim como o efêmero não é sinônimo de fracasso. Uma jaula é segura e nem por isso um lugar feliz, da mesma forma que viagens são fugacidades maravilhosas que se perpetuam dentro de nós. Nenhuma história é vã. Nada é. Nossa alma-memória, aquela que nos identifica, define e referencia, é como uma colcha de retalhos; alguns retalhos são mais bonitos que outros, mas todos são necessár7ios.
   "Amar o perdido deixa confundido o coração" (Drummond) porque é amar o intangível, o que, não sendo mais, ainda resiste, insiste e ressignifica, o que antes tinha outro nome e valor. Amar o perdido é reconhecer que muito tempo, energia e as melhores intenções foram investidas, empenhadas e depositadas numa relação, num incrível voto de confiança no outro e na Vida. Sim, mesmo os grandes erros e as falências retumbantes têm histórias comoventes e belas. Amar o perdido é entender que nada se perde.
    Amar o perdido só é possível quando você volta para a casa dentro de você. Melhor que dar a volta por cima, é voltar para si mesma. Nessa hora você se sabe inteira, apaziguada, de bem com sua história. Aí, você entende o weCloud e lembra de Quintana dizendo: "eternas são as nuvens", e você se comove com a certeza de que um certo "para sempre" existirá, pois "as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão" (CDA).
   É isso, não fica o que é lindo. Fica o que finda. Fica de um jeito real. Não fica lindo só porque finda. Fica, porque finda, e, quando finda, fica o que foi de verdade, o que nunca finda.
   As coisas findas ficam. Perdidas, talvez, mas para sempre nossas. Eternas, como só as nuvens podem ser.  

(Revista LOLA, outubro de 2012)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

EM MINHA OPINIÃO


   Defender as nossas ideias sem deixar de respeitar a dos outros é difícil. Exige senso ético e abertura para mudar. Mas é do diálogo que nasce o entendimento, e é através de sua prática que ideias são ampliadas.  POR_EUGENIO MUSSAK 

  Eu penso diferente de você, mas vou defender até a morte seu direito de ter sua própria opinião. 
  Esta frase é atribuída a Voltaire, provavelmente dita para Rousseau, um misto de amigo . e oponente intelectual do filósofo francês. Mas, mesmo que não seja dele, a frase tem seu impacto, porque é o tipo de pensamento que se toma maior que seu autor. Ela envolve três questões que, quando caminham juntas, criam a trilha do mundo civilizado: a liberdade, o respeito e o discernimento. 
  Infelizmente com frequência falta uma das três nos mais diferentes tipos de relações humanas e, quando isso acontece, alguém será prejudicado, quando não todos os envolvidos. Quando falta liberdade a pessoa não se manifesta; quando falta respeito ela inibe a outra; e quando falta discernimento a conversa não tem valor. 
   O que é uma pena, pois, como se sabe, é do diálogo que nasce o entendimento, e é através de sua prática que as ideias são ampliadas. A liberdade para expressar sua opinião pressupõe o respeito 
do outro em ouvi-Ia, ainda que não mude a sua em um milímetro sequer. E é esse exercício que colabora para o aumento do discernimento, da clareza do pensamento a respeito de um fato qualquer. 
   Debater e defender ideias define a qualidade do intelectual, aquele que está sempre atento a novos aprendizados e sabe que a conversa é uma fonte tão grande de conhecimento quanto um bom livro. Mas não pode ser uma conversa qualquer. Primeiro, tem que ter conteúdo; segundo, tem que ter fluxo, ser um diálogo. Não há nada mais maçante do que um monólogo a dois. 
  Nas escolas americanas, há uma atividade extracurricular que já está começando a ser praticada no Brasil e que já é comum em faculdades de direito: o clube de debate. O tema está muito bem explorado no filme Debate pela Li berdade, com o Denzel \Vashington. Vale a pena vel: 
  Por que levar o debate para o ambiente escolar? 
  Ora, porque ele prepara o estudante para os embates da vida. Não serão poucas as vezes em que esse jovem terá que expor suas ideias para atingir seus objetivos e para ser respeitado. E, nesse caso, não valerá só a qualidade do argumento, mas também a força da argumentação, a capacidade de defender suas convicções, com lógica e com paixão. 
  A diferença entre um debate estruturado como se pratica nas escolas e o que acontece na vida real é que no mundo acadêmico algumas regras fundamentais são seguidas, como o respeito, a disposição para ouvir e o direito a réplicas. Tudo isso acompanhado de perto por um moderador, em geral mais velho, frequentemente um professor. 
  Na vida como ela é, não vai haver esse moderador educado e firme. As pessoas acabam cumprindo o duplo papel de debatedores e moderadores, o que é extremamente difícil. São necessários um bocado de senso ético, principalmente o respeito pelo direito de o outro ter sua própria opinião, e a abertura para mudar a sua, desde que movida pelo argumento da lógica. 
  Quem habita o selvagem mundo das empresas, para usar o exemplo mais evidente, sabe que unm executivo precisa desenvolver válias competências além de conhecer o business, e entre elas está a capacidade de negociar utilizando argumentos válidos. Não valem mais nem a força nem o engano. É preciso saber argumentar com base na lógica, e a lógica engorda quando se alimenta do argumento do outro. 
  Definitivamente não se sobrevive no ambiente corporativo sem a capacidade de ter e defender sua opinião. Há dois tipos que são malvistos nas empresas: os maria vai com as outras, que parecem não ter opinião e sempre adotam a dos outros, variando de acordo com o momento; e os donos da verdade, os truculentos que se consideram acima dos mortais comuns, que sempre sabem tudo e que precisam se afirmar a partir da força, talvez para esconder um complexo de inferioridade subjacente. Não há nada mais maçante do que um arrogante intelectual. 
  E não é só no trabalho que esses gladiadores verbais se apresentam em sua melhor forma Eles estão em todos os lugares. Talvez uma das arenas mais frequentes seja aquela que deveria ser um espaço de paz: o casamento. Conhece algum exemplo? 
   Recentemente encontrei um amigo em um bar. 
  Alias, esse sim é um lugar para debater qualquer coisa, pois todas as opiniões são bem-vindas, principalmente aquelas que apimentam a discussão acompanhada por cevada, malte ou uvas fermentadas. Os antigos gregos discutiam filosofia tomando vinho, daí a palavra simpósio, que significa exatamente beber junto, aproveitando para filosofar, claro. 
  Voltando ao meu amigo, ele estava naquele lugar exatamente afogando as mágoas pelo fim de seu casamento. Quando conversamos, ele desabafou e, respondendo à minha pergunta sobre o motivo principal da separação, ele explicou: 
   - No começo, discutíamos tentando encontrar uma solução. Com o tempo, passamos a discutir querendo ter razão. Foi quando tudo desandou ...  

(Revista LOLA)

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

CABEÇA DE OTIMISTA


    Por que a gente acredita que tudo vai dar certo - mesmo com tanta desgraceira aparecendo no noticiário? Porque nossos neurônios armazenam mais as expectativas positivas, explica a pesquisadora Tali Sharot, que aliou psicologia e neurociência para mostrar que o cérebro produz otimismo como estratégia de sobrevivência.  POR_ISABELA NORONHA  

    Você se casou achando que é para sempre? Sai de casa todo dia com a certeza de que chegará bem? Bebe umas e fuma um cigarrinho sem ter pensamentos alarmistas demais com a saúde? É seu cérebro otimista trabalhando. "Tendemos a superestimar a probabilidade de coisas boas acontecerem com a gente e subestimar as ruins", explica a neurocientista israelense Tali Sharot. Não é que não acreditemos nas tragédias que pululam nos noticiários. A gente se sensibiliza, perde a fé na humanidade, acha que a economia não segura, que o mundo está perdido...Mas nosso próprio futuro tende a permanecer imaculado, cor-de-rosa. É que, se não acreditássemos que tudo vai dar certo, nem sairíamos de casa. E, possivelmente, ficaríamos loucos com a única certeza que realmente podemos ter sobre o que virá: mais dia, menos dia, partiremos desta para melhor - olha aí outra previsão otimista. Por cinco anos, Tali estudou o cérebro para descobrir como é possível que sempre esperemos coisas boas, mesmo tendo informações suficientes para ter expectativas mais realistas. O estudo foi publicado no livro The Optimism Bias (O Viés Otimista, em tradução livre). Em entrevista a LOLA em seu escritório, no quinto andar do Centro de Neuroimagem da University College of London, no centro da capital inglesa, Tali explica por que o otimismo é uma estratégia do cérebro - para o nosso bem. 

LOLA: O que faz uma pessoa ser otimista? 
TAL! SHAROT: Isso é determinado por uma combinação genética. Alguns genes estão ligados ao otimismo, geralmente os mesmos que são relacionados à depressão. Cerca de 80% das pessoas tem o viés otimista. Claro: você pode ter mais ou menos viés. Há pessoas extremamente otimistas, outras moderadamente, e por aí vai. Estima-se que 30% ou 40% do quão otimista você é baseia-se na genética. O restante são experiências e a influência da família e do ambiente. 

Então, há relação entre depressão e otimismo? 
A depressão é como se fosse uma imagem espelhada do otimismo, está ligada ao pessimismo. A depressão tem relação com a ausência do viés otimista. Uma depressão moderada não está relacionada a nenhum viés, quando o cérebro responde igualmente às informações positivas e negativas. E a depressão severa está relacionada ao viés pessimista, quando as pessoas esperam que as coisas sejam piores do que acabam sendo. 

Você diz que a maioria das pessoas tem o viés otimista. Mas há muita gente que não se vê assim. Por que isso acontece? 
O viés é justamente isso: acreditar em determinadas coisas mesmo que sejam pouco realistas. Mas, para nós, nossa previsão é realista. Se nos considerássemos otimistas, estaríamos admitindo que o que pensamos que vai acontecer é, na verdade, pouco provável. 

É por isso que em seu livro você chama o otimismo de ilusão? 
Sim, o otimismo é algo que criamos, mas não de forma consciente. Ele é produto de processos básicos do cérebro. 

Que processos são esses? 
Algumas partes dos lobos frontais, a parte da frente do cérebro, respondem mais a informações positivas sobre o futuro do que a negativas. Responder significa processar, levar uma informação em conta e incorporá-Ia às suas convicções. Também descobrimos que, quando imaginamos o futuro de forma positiva, partes dos lobos frontais e a amígdala, uma pequena estrutura cerebral importante para processar emoções, ficam mais ativas. Assim, imaginamos eventos bons de maneira mais vivida e construímos uma imagem melhor. Possivelmente porque os lobos frontais estão modulando as atividades da amígdala, direcionando-a a associações positivas. 

E por que o cérebro age dessa maneira? 
O otimismo oferece vantagens para a sobrevivência. Pessoas otimistas tendem a viver mais. Elas são mais saudáveis, porque ficam menos estressadas. E geralmente são mais propensas a tomar atitudes que as ajudem a se desenvolver e a seguir em frente. 

Mas os pessimistas não são menos vulneráveis a frustrações? 
Não. Primeiro porque é menos provável que um pessimista seja bem-sucedido. Se ele pensa que nada vai dar certo, nem se esforça. Além disso, expectativas positivas nos deixam felizes por si só. Um pessimista passará as semanas antes de um exame importante sofrendo, o otimista ficará bem. E não é que ele não vá estudar - ele acha que tudo dará certo justamente porque vai trabalhar para isso. Economistas da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, mostraram que otimistas normalmente se esforçam mais. Por fim, se eles não alcançam o resultado desejado, não se sentem piores. O que o otimista tende a fazer é interpretar a realidade ruim como algo passageiro. 

Você diz que normalmente achamos que vai dar certo para a gente, mas não somos tão otimistas com relação ao vizinho ... 
O viés otimista está relacionado a outros vieses comuns: a "ilusão de superioridade" e o "efeito melhor que a média", em que acreditamos ser melhores do que realmente somos e melhores do que as outras pessoas. Se você se acha especial, o próximo passo lógico é acreditar que tudo vai dar certo, que seu futuro será melhor que o dos outros. 

No livro, você cita uma experiência em que estudantes recebem, aleatoriamente, palavras como "esperto" e "estúpido" e acabam agindo de acordo com elas. Isso poderia ser aplicado, por exemplo, na educação de nossos filhos? 
Suponho que sim. Quando as pessoas têm expectativas positivas, tendem a se esforçar mais. Mas não é só isso. Nessa experiência, o que se percebeu é que, quando você espera o melhor de si mesmo, também aprende mais com os erros, porque eles são interpretados como surpresa pelo cérebro. Se você diz a seu filho que ele é bom em futebol e ele joga mal, depois ele tenta entender. "Era para eu ter ido bem, o que eu fiz de errado?" Mas, se não há a expectativa de que jogará bem, ele não refletirá sobre isso. E também não aprenderá. 

Não há riscos em ser otimista? 
Há riscos no excesso, porque você tende a não tomar as atitudes necessárias para se preservar. Já foi demonstrado que o otimismo extremo está ligado a fumar mais, por exemplo. Um otimista extremo pensa: "Vou fumar porque nunca ficarei doente". Um otimista moderado leva em conta mais informações para tomar essa decisão. Os otimistas extremos são cerca de 20% das pessoas. Então, a maioria de nós é moderadamente otimista. Você pode continuar esperando o melhor, mas tem que se cuidar. 

Não é uma contradição? 
Não. É possível ter o melhor dos dois mundos. Não estou sugerindo que você seja menos otimista. Mas saiba como seu cérebro funciona e previna-se contra consequências do excesso de otimismo: tome atitudes para se proteger se nada sair como o esperado. 

Dá para aprender a ser mais otimista? 
Alguns estudos indicam que sim. O psicólogo americano Martin Seligman tem pesquisas mostrando que métodos semelhantes à terapia cognitivo-comportamental, em que há uma mudança na forma de interpretar a realidade, conseguem tornar as expectativas otimistas. Quando um pessimista recebe uma promoção, por exemplo, tende a pensar: "Isso só aconteceu porque fulano saiu da empresa, não tem nada a ver com minhas qualidades ou com o futuro e com outras áreas da minha vida". Um otimista promovido pensa: "Isso é porque eu sou talentoso e, portanto, me sairei bem não só no meu trabalho, mas em tudo o que fizer". No método que Seligman usa, ele ensina as pessoas a interpretar acontecimentos positivos como os otimistas, ou seja, como duradouros. estáveis e aplicáveis a outras áreas. E os negativos, da forma inversa. 

Mas isso altera os processos no cérebro?
 Toda conversa, tudo o que acontece com você, muda a forma como os neurônios conversam entre si. Claro: é uma questão de grau, de fazer as coisas com frequência. Por exemplo, na primeira vez em que joga tênis, as mudanças que ocorrem são poucas. Mas, se você joga várias vezes, modifica as conexões entre os neurônios. Por isso, após dois anos jogando, é automático: seu cérebro se acostumou a determinados movimentos. 

Qual a relação entre memória e otimismo? 
O cérebro usa o mesmo sistema para lembrar e para imaginar o que virá. A imaginação baseia-se em fragmentos de memória. Para prever algo, sua próxima festa de aniversário, por exemplo - você usa sua memória. É dela que você tira informação. Você se lembra do restaurante em que fará festa, dos convidados - talvez nem de festas suas, mas de seus amigos. É tudo uma questão de como você combina esses fragmentos para produzir algo novo. 

Então, os otimistas são aqueles que veem o lado bom do passado? 
De forma alguma. A gente não analisa o passado com um viés. Não é preciso ser positivo em relação ao que passou para ser positivo em relação ao futuro. Um otimista olha para trás e pensa: "Errei nos meus cinco últimos relacionamentos, mas aprendi e, por isso, meu próximo namoro vai dar certo". Ele avalia o passado para descobrir como fazer o futuro ser melhor, independentemente de esse passado ter sido bom ou mim. 

Às vezes, conseguimos o que havíamos imaginado, mas não parece tão bom ... 
É difícil saber o que nos fará feliz. Quando imaginamos o futuro, pensamos em apenas parte dele. É como ver o trailer de um filme só com cenas emocionantes. E a gente prevê como vai se sentir baseando-se nisso. Quando o futuro chega, os momentos empolgantes até estão lá, mas a maior parte dele é a vida comum. Quando fazemos escolhas - em que cidade viver, onde passar as férias, tendemos a nos basear apenas na parte boa, não em nosso dia a dia. E aí a gente erra. 

Agora que sabemos disso, ficaremos menos otimistas? 
Não. A ilusão do otimismo é como qualquer outra. Mesmo que saibamos que ela existe, não deixamos de tê-Ia. Não é algo que possa ser modificado pelo conhecimento. 

Então não é verdade que, quanto mais velhos, mais sábios somos? 
Depende da definição de "sábio". Não acho que ter expectativas realistas seja sábio. Ser otimista torna sua vida melhor.  

       (Revista LOLA, outubro de 2012.)