terça-feira, 11 de agosto de 2015

MINHA ORAÇÃO DO DIA DOS PAIS

            Neste Dia dos Pais, quero agradecer a Deus pelo pai que tenho. Quero agradecer por eu ser um privilegia- do, que teve um pai que mostrou sempre o caminho do estudo, do trabalho e da dignidade. Quero também agradecer ao meu pai por tudo o que fez por mim e pela minha família.
           Mas eu quero aproveitar o Dia dos Pais para pedir a Deus. Não por mim nem pelo meu pai. Quero pedir pelo pai empresário, pelo pai brigadiano, pelo pai trabalhador, por todos os pais e filhos. Quero pedir a Deus que ilumine pais e filhos. Vivemos em um tempo de violência, de falta de ética, um tempo em que os filhos não respeitam mais os pais nem os professores. Deus, fico pensando onde erramos. Nunca vivemos com tanto conforto como agora, do ar-condicionado à Ta cabo. A modernidade nos trouxe muito além do necessário. Temos tudo e não estamos satisfeitos.
           Deus, parece que nunca houve tanta intolerância, do futebol à cena política, do trânsito à escola. Eu me preocupo muito com a escola, porque é quem recebe os filhos dos pais que já não conseguem preparar para essa nova etapa, pela qual todos passamos, filhos e pais. Deus, nossos filhos, que não respeitam pais, que não respeitam professores, também não respeitam  mais qualquer autoridade. Vivemos uma crise de autoridade. E, como respeitar, se o que vemos são as mais altas autoridades envolvidas diuturna e impunemente em escândalos de corrupção, enquanto o professor sofre sem salário, e o pobre) sem hospital. Deus, nunca se viu tanto desmando.    
          Deus, os pais vivem tempos de intolerância e aflição, em que a violência não cede, a drogadição está batendo à nossa porta e a sociedade vive uma crise política e ética sem precedente. Deus, nossas cadeias estão lotadas de pais e filhos, o sistema jurídico está enfarta- do; e as polícias há muito não dão conta. Deus, nosso sistema de saúde também não dá conta. O que esperar da educação? Deus, o que dizer dos valores básicos da vida, da honestidade e da fraternidade do ser humano.
          Deus, faço. esta oração pedindo que ilumine o pai  prefeito, o pai juiz, o pai governador. Peço que ilumine todos, os pais, só, os pais podem nos salvar. A família é primeira e mais 'importante célula de convivência, o .alicerce da personalidade, molde do caráter. E o pai é o fio condutor dos valores. Deus, os pais precisam ser iluminados para lembrarem que as palavras conduzem, e os exemplos arrastam, que precisam ser o, facho de luz norteando pelo caminho do bem. Deus, abençoe todos os pais neste dia e lhes dê força para retomarem seu papel como primeiros e mais importantes formadores dos indivíduos desta sociedade: Deus, só os paipodem nos salvar .
                  
              (Marcelo  Arigony, Delegado de Polícia Civil de Santa Maria – DIÁRIO DE  SANTA  MARIA, 8 e 9 de agosto de 2015)
                  
                     

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

DICAS PARA MELHORAR SUA MEMÓRIA

  Sedentarismo, dieta errada, depressão e pouco treino intelectual influenciam no (maufuncionamento do cérebro. Veja como reverter esses efeitos e turbinar sua capacidade de gravar informações.

   O vencimento da fatura do cartão de crédito, o nome daquela atriz (aquela, daquele filme), o título do último livro que você leu ... Às vezes parece que as informações são deletadas da sua cabeça sem aviso prévio? As falhas da memória são consequência do passar do tempo, sim, mas não só. "Diabetes, hipertensão e problemas da tireoide, assim como déficit de vitaminas e depressão, se não controlados, comprometem o desempenho cerebral", explica a neurologista Sonia Brucki, professora da Universidade de São Paulo. No entanto, pessoas saudáveis e com a mesma idade podem ter comportamentos diferentes em relação às lembranças - e, enquanto uma se recorda de datas e detalhes, outra esquece o que estava vestindo ontem. "Somos influenciados também por nossa alimentação, pela prática de atividades físicas e intelectuais e, acredite, pelo bom humor", completa Sonia. A genética e a idade têm um peso de 25% a 30% no desempenho cerebral. Já esses outros fatores respondem pela maioria restante. Portanto, quem quer melhorar a memória precisa manter a saúde em dia e se empenhar em treinar o cérebro - e esse é um dos principais ensinamentos de Nelson Dellis, quatro vezes campeão da memória nos Estados Unidos (onde existe uma competição que mede o potencial de recordação dos participantes). Dellis esteve no Brasil em abril, quando contou a CLAUDIA sobre as técnicas que usa quando quer gravar uma informação  e confessou que também vive esquecendo onde guardou as chaves, já que dá menos atenção a elas. "Para se lembrar de algo, a pessoa precisa focar", alerta o psiquiatra Luís Gustavo Buzian Brasil, da clínica Maia, em São Paulo. A seguir, quatro dicas para turbinar a memória.

 LEVE UMA VIDA SAUDÁVEL
   Quem faz atividade física tem 35% menos risco de declínio cognitivo do que os sedentários, aponta estudo publicado no Journal of Intemal Medicine. O prato também conta - e muito.
    Alimentos como nozes, azeite e tomate (típicos da dieta mediterrânea) são ricos em ômega 3, gordura monoinsaturada e licopeno, respectivamente, que retardam a oxidação das células como um todo, inclusive os neurônios. ''Vinho tinto de qualidade e sem exageros e alimentos integrais também fazem diferença", complementa o nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, Outro componente especialmente benéfico para a memória, descobriu-se recentemente, é o DHA, presente no ômega 3. Ele pode ser encontrado em peixes de água fria, como salmão e atum, ou em suplementos - com orientação médica.
  "A suplementação é contraindicada para quem tem problemas de coagulação", avisa Ribas Filho.
       
DESAFIE O RACIOCÍNIO SEMPRE
  Leitura, palavras cruzadas, quebra-cabeças e mesmo discussões sobre política e atualidades exercitam nossa capacidade de guardar dados. "Se alguém trabalhou como advogado a vida inteira e, depois da aposentadoria, deixa de ter atividades intelectuais, a memória e a concentração são prejudicadas", alerta Sonia Brucki. Quer dizer, para manter o cérebro em pleno funcionamento é preciso desafiar o raciocínio constantemente. E, para desenvolvê-lo, essas atividades são essenciais também, como notou o engenheiro Antônio Carlos Guarini Perpétuo, fundador da Supera, rede de escolas baseadas na "ginástica cerebral".
.              O conceito por trás dessa rede é estimular o cérebro por meio de exercícios que permitem restabelecer e turbinar suas conexões. Perpétuo decidiu apostar nisso depois que notou a diferença que o treino com o ábaco, calculadora manual da Antiguidade, tinha feito pela capacidade de concentração e aprendizado de seu filho, então com 9 anos.

TREINE SEU CÉREBRO
      Nelson Dellis, campeão da memória, dá sua receita: "Quando quer memorizar algo, o primeiro passo é prestar atenção", afirma ele, que leva a sério as recomendações quanto a alimentação, exercícios e bem-estar já mencionadas. Em seguida, ele indica algumas de suas estratégias. Suponhamos que você precise decorar o nome de alguém e suas feições. Crie uma história entre elas - Isabel, digamos, que se parece com sua tia, detesta o próprio nome. Então visualize-as discutindo sobre isso. Ela grita, brava: "Detesto me chamar Isabel!"  Use suas sensações: você fica assustada com os gritos. Inverossímil? "É útil criar cenas exageradas. Como aquela imagem se destaca das outras, é mais facilmente armazenada pelo cérebro", ele diz. Também ajuda situar a cena imaginária em um cômodo da sua casa ou outro ambiente familiar. Outra estratégia: aproveite momentos livres (como o trânsito) para "repassar" dados que precisa guardar - como a apresentação de um projeto.

MANTENHA  O  ASTRAL  ALTO
     "A depressão causa um rebaixamento da capacidade neuronal", alerta o psiquiatra Luís Gustavo Buzian Brasil. Com isso, atividades cerebrais, como memória e atenção, ficam . comprometidas e a pessoa tem maior dificuldade de se lembrar de fatos antigos e (por causa da atenção menor) recentes.
  "Períodos de tristeza não patológica também prejudicam a concentração", avisa o especialista. "A pessoa sente um desânimo que acaba diminuindo sua capacidade de focar
." Segundo ele, se a sensação se prolonga por mais de três semanas, já é motivo para procurar um médico - remédios e psicoterapia
podem ajudar. Mas nem só os casos extremos influenciam no funcionamento do cérebro.
   "Seguir a vida com bom humor e leveza, assim como ver amigos com frequência e participar de atividades em grupo, é importante para o bem-estar", aponta Sonia. Quanto melhor a pessoa estiver se sentindo, maiores as chances de ter suas funções mentais a pleno vapor.


                      (LlLIANE PRATA, revista CLAUDIA, julho de 2015)

quinta-feira, 23 de julho de 2015

DÓI CONSTATAR QUE, PARA MUITOS, HÁ VIDAS MAIS VALIOSAS QUE OUTRAS

    Se você é daquelas pessoas que acha que os seus problemas são os maiores do mundo, leia esta reportagem e verá que existe gente vivendo em situação muito pior.

       A  pesquisadora paulistana Glenda Andrade, 28 anos, morou 45 dias num campo  de refugiados palestinos no Líbano. Ela conta como a experiência a fez repensar valores e mudar sua forma de vencer o mundo.
   “Poucas pessoas têm a força para manter a sua própria integridade se o seu estatuto social, político e jurídico foi colocado em questão (. .. ) Perdemos a confiança em s mesmos se a sociedade não nos aprova.” Foi com esse trecho do livro Tradições Escondidas, da cientista política alemã Hannah Arendt, em mente que cheguei ao campo de refugiados palestinos de Shatila, no Líbano. Viajei até lá para fazer uma pesquisa sobre , como parte do meu doutorado em ciências políticas. Muito além do meu estudo, queria ter certeza de que tinha conhecimento suficiente sobre as vítimas de guerra, o que passam e o que sentem. Por isso, achava importante me colocar na mesma situação delas. Sempre soube que essa experiência me mudaria para sempre. E foi o que aconteceu.
   Morei 45 dias em Shatila, campo criado em 1949 com o objetivo de abrigar os sobreviventes do norte da Palestina que fugiam da guerra árabe-israelense de 1948. Atualmente, o local, de 50 mil metros quadrados (o equivalente a cinco campos de futebol, em média), abriga 22 mil pessoas em construções precárias, muitas vezes construídas pelos próprios moradores. :ֹ a agência da Organização das Nações Unidas para refugiados palestinos no Oriente Médio a responsável pelo fornecimento de saneamento básico, saúde e educação Shatila. O estigma da violência pesa sobre o campo e sobre as pessoas. Não tinha como ser diferente comigo. Também pesou e doeu em mim. 
   Cheguei no dia 2 de fevereiro deste ano. Ao entrar no local, desviei de três ratos e vários sacos de lixo. Subi cinco andares de escada no escuro. A luz do celular me ajudou a não tropeçar. Finalmente, entrei no que seria o meu lar pelas semanas seguintes. Chamada de Guest House, a casa é mantida pela ONG Child. 
  Os meus primeiros minutos em Shatila foram o prenúncio do que viveria ali: uma vida extremamente difícil, cheia de limitações, como a falta constante de energia elétrica e a escassez de água doce - nas torneiras, só salgada; a potável precisa ser comprada -, mas, ao mesmo tempo, rodeada de pessoas incríveis. Seres humanos, como em qualquer outro lugar do mundo. Ou não, pois o que vi ali eram verdadeiros heróis. Pessoas com uma capacidade sobre-humana de manter sua integridade diante de todas as adversidades. E não são poucas. Para circular fora dos campos, os palestinos vindos da Síria precisam de um documento que custa 200 dólares.
  Sem dinheiro para pagar por ele, não deixam o local com medo de ser barrados nos milhares de check-points espalhados pelo país. Eles são proibidos de exercer determinadas profissões, como medicina e direito, não importa quanto estudem ou tenham experiência na área. Alguns refugiados trabalham nas ONGs que atuam dentro do campo ou nos pequenos comércios que se desenvolvem ali, mas não há oportunidade para todos. Em uma entrevista, perguntei a um homem como era a rotina dele.  A gente acorda e dorme, ele me disse.
 Como a maioria dos moradores, eu também não tinha um dia a dia definido. Às vezes, fazia entrevistas formais com líderes de associações e ONGs. Em outros dias, visitava diversas casas para conversar com os refugiados. Algumas eram apenas um cômodo com cerca de 10 metros quadrados, sem janela, onde moravam até oito pessoas. Elas me recebiam de braços abertos, me davam seu tempo. Em todos os lares, fui convidada a almoçar, jantar e tomar os chais (c, em árabe), mesmo que elas mal tivessem o que comer - alguns refugiados recebem uma ajuda financeira para a alimentação, mas ela não é suficiente.
 Foi exatamente nessas conversas que me dei conta da complexidade de uma vida no exílio. Foi aí também que percebi que, não importava quantos livros eu lesse, quantos relatórios eu analisasse, a realidade era muito mais dura. E o que mais me machucava é que ela não era dura para mim. Eu ficaria ali por apenas algumas semanas, mas e aquelas pessoas? Ter a certeza dos meus privilégios como ser humano em comparação a outros indivíduos que em nada diferem de mim dói muito. Dói porque me sinto impotente e, pior, porque não consigo entender a discriminação nem a falta de igualdade. Dói constatar que, para muitos, vidas mais valiosas que outras.
 Antes de ir para Shatila, já tinha aberto mão da minha vida no Brasil para apenas estudar o tema. Mas, depois de viver sob tantas limitações, você começa a se questionar e dar muito mais valor ao que tem. Passei a refletir muito mais sobre as nossas verdades absolutas, sobre os discursos que abraçamos, os conceitos que criamos e sobre o que consideramos comum ou mesmo “normal”. Não é normal que 22 mil pessoas passem a vida em um campo sem perspectiva de retorno para a casa delas. Não é normal não ter acesso à água doce. Mas a realidade é outra. O refugiado é considerado apenas uma vítima sem nome, sem história. E, com o tempo, é esquecido. Para o mundo, ele é inexistente. Problemas políticos causam danos humanitários irreparáveis.
     Mas aquando aceitaremos isso? Infelizmente, ainda não sei quanto podemos fazer o mundo mudar, mas eu, definitivamente mudei.

                                                  (Revista  CLAUDIA, junho 2015)



segunda-feira, 13 de julho de 2015

PONTO NOS IS

   

    Não há dúvidas de que a pontuação é uma das boas dificul-dades desta nossa rica língua portuguesa: "Última flor do Lá-cio, inculta e bela. És, a um tempo, esplendor e sepultura ... ", no dizer versado de Bilac.
    Minha saudosa mulher, que conhecia de cor toda a gramá-tica do nosso vernáculo, sabia ministrar uma esplendorosa aula sobre a pontuação. Confesso que aprendi com ela  muitas reticências. A última lição ela que me deu foi sobre o uso definitivo e fatal do ponto final.
    Falar nisso, sou solidário à triste solidão do ponto, que sempre foi um namorado apaixonado pela dona vírgula, moça feita de curvas graciosas e negaças de esperas. E não é que a vírgula também se tomou de amores pelo ponto?! Pois casaram e se tornaram um par inseparável , conhecido como "ponto e vírgula". Apaixonado e másculo que era, vivia o ponto sobre a vírgula, num definitivo conúbio gramatical. E não há leitor que não faça. uma pausa maior na frase, até que o ponto e a vírgula terminem a sua cópula incansável.
     Dizem por aí que o casal ponto-e-vírgula gerou três filhos varões. Três pontinhos, que se chamaram reticências. Em compensação,  houve casos de homossexualismo entre outros pontos. É o caso dos "dois pontos"! Caso que sempre requer ou sugere uma explicação.
     Sei lá, que não quero entrar nessa discussão, nem tomar partido, posto que não sou preconceituoso.  
    É verdade que fica no ar um "ponto de interrogação". Tanto que alguns se surpreendem e não resistem a um "ponto de exclamação". O que é apenas mais um sinal do nossos tempos.
    Que ninguém pergunte nem se exclame desse imbróglio criado pelo ponto e pela vírgula. Nem é bom que se fale sobre os "acentos": a crase, o "acento agudo" (que é um "grave assento) mais o til e o "acento circunflexo". Aliás, sobre este último (hum ... !),tenho uma quizila.
    Leitor, você sabe o que quer dizer "circunflexo"? Pois (pasme!), circunflexo quer dizer a forma de arco, curvado, encurvado, arqueado, em forma de um segmento de círculo. E o acento circunflexo não tem nada a ver com essa forma curva. ·É um ângulo obtuso, colocado sobre as vogais "a", "e", "o", como o perfil de um daqueles chapéus chineses, sem nenhum forma curvilínea. pode? 
    Pois é! E tem mais: o "trema" era um "traço de união" que, partido ao meio por uma pu-nhalada gráfica, virou dois pontos colocados lado a lado. Eles foram apelidados de "trema", porque o medo ainda os faz tremer. Por sorte, o nosso grande gramático (Lula), acabou com esse sinal, na última reforma ortográfica, do que. até hoje, alguns "Us" e "Is" se queixam. 
    É por tudo isso, e muito mais, que vivo às turras com a gramática, com os vocábulos e 
com os sinais diacríticos ou patognomônicos. Mas não estou sozinho nessa briga: há muita
gente que confunde C cedilha (ç) com dois esses (ss). E chega! É muito desconfortável
esse tema!                                       
              (J. Bicca  Larré, Diário da Santa Maria, 04/07/2015)