sexta-feira, 3 de julho de 2015

VIVER É APRENDER

    
 Crônica de Danuza Leão:

      Vocêֺ passa a vida aprendendo. E, mesmo se chegar até os 150 anos, vai aprender várias coisas novas por dia até o último minuto. No início, as mais elementares: não botar a mão no fogo, não provocar o cachorro da vizinha, nem colocar o dedo na tomada. Aprender a se educar. E, ao se lembrar do tempo que perdeu na praia no lugar 
de estudar mais (muito mais), vai dar até vontade de chorar. O pior é que essa consciência
só vem tarde. Mas nunca é tarde demais.
E como é bom saber das coisas. O prazer da leitura - tem maior? - ainda permite aprender mais. Com um bom livro, você enfrenta noites de solidão e vence quase qualquer depressão.
  Também é possível educar o ouvido. É claro que, se você crescer ouvindo só as ricas melodias do funk, o vai ser um adulto tão feliz. Entretanto, se der a sorte de ter uma tia que guardou uns discos antigos - já ouviu falar de LP? -com uns belos Lupicínios, uns velhos Carlos Galhardos, uns antigos tangos de GardeI, vai dar para sentir que existe salvação fora dos ritmos mais modernos. Isso para não falar dos clássicos, coisa mais séria e que exige tempo e concentração maiores - tempo que vojamais vai lamentar como perdido, mesmo que não se torne expert em música.
    Existem ainda os celestiais prazeres do paladar. Dizem que eles só começam a se desenvolver verdadeiramente depois dos 18 anos - a não ser que você tenha nascido na França. Lá, sobretudo no interior, uma criança de 5 anos é capaz de devolver o prato no restaurante se a carne não estiver no cozimento certo e ainda discutir com o chef sobre a origem das melhores trufas. No quesito vinho, qualquer motorista de táxi de Lyon e até de Paris - reconhecida pelos franceses como uma cidade onde se come e bebe mal- sabe perfeitamente se a safra de 1968 dos Bourgogne foi digna de ficar na história ou se virou apenas artigo de interesse para turistas americanos.
       Assisti uma vez, na televisão francesa, a um programa de uma hora inteira, sem comerciais, sobre gastronomia. O dois convidados eram Jacques Chirac, ex-presidente da Fraa, e Helmut Kohl, ex-chanceler aleo. Amante de bons chucrutes e boa cerveja, Kohl terminou dando um conselho: que os governantes não deveriam ser escolhidos por serem de esquerda ou de direita, mas por possuírem ou não o gosto pela boa mesa - os que fazem dieta não deveriam nem se candidatar, argumentou.
   Já bom gosto e boas maneiras podem ser adquirido convivendo com (e observando atentamente) as pessoas verdadeiramente elegantes no traje e sobretudo no trato - o que não tem nada a ver com tamanho da conta no banco.
    Quanto mais se sabe, mais se quer saber. A vida vai ficando mais rica e nossas possibilidades vão se ampliando. Antes de viajar, esqueça de pedir o endereço das compras e leia um livro sobre o país que vai conhecer. Essa, sim, será a mais inesquevel das viagens.
     O mundo é cheio de tesouro em qualquer esquina - se você souber vê-los. Aprenda, conheça, procure saber sempre tudo e sempre mais. Assim, você vai dominar o mundo; um mundo que será o maior de todos - e só seu.
                     
                                              (Revista CLAUDIA, JUNHO DE 2015)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ESPALHE CARINHO

   
   NESTE 12 DE JUNHO, VÁ MAIS LONGE: pense grande, aja grande, ame grande. No lugar de simplesmente seguir o comportamento padrão de comprar um presente para seu namorado (ou marido), sair para jantar fora só os dois e depois apenas reto- mar as mesmas atitudes desatentas que norteiam nossa rotina nesta vida de correria e stress, mande mensagens de amor para as pessoas que estão perto de você no dia a dia. Uma amiga querida, um irmão atencioso, uma vizinha cuidadosa, um colega generoso, uma prima amorosa, uma funcionária caprichosa .   
   O mundo precisa se conscientizar de que devemos transcender o ego individual e viver em sentido de comunidade, de compreensão, de colaboração. Você já ouviu falar que todos somos UM? Que vivemos em um universo de inter-relacionarnentos onde o conjunto de nossas ações, pensamentos e emoções afeta o coletivo? Sejam eles bons ou ruins - mais e mais temos notado que a violência que existe lá fora é basicamente o somatório da violência que existe dentro do nosso coração também. E, para mudar isso, precisamos começar mudando a nós mesmos.
    Acredito que essa seja uma enorme oportunidade para revermos esse conceito e pro- mover uma evolução interior. Façamos uma corrente do bem tendo atitudes de gentileza e de carinho em relação a muitas pessoas. Você verá como essas ações inesperadas e desinteressadas vão tocar fundo o coração de
cada uma delas. Não estamos acostumados mais com esse tipo de comportamento gentil e amoroso. Nos dias de hoje, parece que o le-
ma universal é o
"Salve-se quem puder", não é mesmo? Que tal fazer diferente?
   Newton nos ensinou através da lei da física que toda ação implica uma reação. E é exatamente isso o que vai acontecer com você, pode apostar. Um novo posicionamento perante a vida e as pessoas vai acionar esse mecanismo infalível e você sentirá o retorno desse sentimento com a mesma força. É por
isso qu
e chamo esse movimento de corrente do bem. Todos sendo gentis, agradecendo, mandando boas vibrações, fazendo peque- nas delicadezas sempre para o maior número de pessoas fará com que uma nova energia se instale e ganhe força ao nosso re- dor. Estaremos unidos pelo amor fraterno, pela gratidão, pela paciência e pela tolerância.
  Você já imaginou como seris bom viver em um mundo no qual cada um se preocupasse com o outro sinceramente? No qual todos tivessem o mesmo valor e
merecessem sua dose de atenção e carinho? É isso que pro
ponho.
     Seja criativo, utilize o poder da imaginação para inventar e experimentar novas formas de agradecer e mandar mensagens de amor - não importa o tipo de amor. Não se limite aos presentes materiais, às flores e caixas de
chocolate
. Um bilhete, um abraço, um elogio podem fazer ainda mais diferença.
   O que vale é termos no nosso coração esse sentimento mais nobre do amor ampliado e direcionado para todos à nossa volta. Ten- te, o Universo agradece, e você, sem dúvida, presenciará grandes milagres acontecerem ao seu redor.

                                                            (Márcia de Luca, revista CLAUDIA, junho de 2015)



quinta-feira, 14 de maio de 2015

RAZÕES PARA CASAR

       Divertida crônica de Danuza Leão sobre motivos para uma casamento.
     

     Existem razões fortes para que uma mulher se case. Pela ordem: uma paixão louca, interesse, considerar que uma mulher sozinha não é nada, a festa.
     Se o caso é de paixão, não há nada a dizer. A não ser que, com o tempo, se aprende que toda paixão passa.
    O segundo motivo, a ser encarado com o devido respeito, é arrumar um marido rico. Antes de manifestar qualquer sinal de reprovação, vamos falar a verdade: um homem rico não é necessariamente feio, grosseiro, mal-educado, insensível, muito menos um gângster. Tem uns até bem simpáticos, convenhamos. E, como todos sabemos, a vida é dura. Essas ressalvas só não valem se você achar que mulher deve ser absolutamente independente e dividir não só as contas do restaurante como também as do condomínio, da luz, do gás e da internet. Em geral, essas desprezam homens ricos que mandam flores, chocolates e até joias nas datas importantes - o que, aliás, é muito louvável. Mas será que não dá para ser um pouquinho menos radical? E, se no futuro ele for envolvido num escândalo daqueles, com fotos no jornal e tudo, esse já é outro assunto.
    Há também as que não conseguem ficar sozinhas, para não ter que entrar em um restaurante ou em uma festa desacompanhadas. Para elas, esse é o sinal mais evidente do fracasso que é sua vida. Afinal, se não tiver um homem
ao lado, uma mulher vai achar graça de quê? Mesmo que ele seja desagradável, galinha, beba mal e, além de contar piadas, repita cons-tantemente as mesmas, é sempre bom ter um por perto. Ainda que ele entre em casa todas as noites, à mesma hora, dizendo exatamente a mesma frase, com exatamente a mesma entonação, não é uma maravilha saber que não se
está sozinha na vida? Por incrível que pareça, muitas acham que sim.
      E existem aquelas que se casam pela festa. Quanto tempo levam os preparativos para um casamento daqueles? Anos; e o vestido é o menor dos problemas. Começa com a escolha do cerimonialista, que ajuda a decidir tudo, menos o noivo (por enquanto). A escolha da igreja, do local da festa e das dezenas de profissionais envolvidos: fotógrafo, decorador, florista, responsáveis pelos convites, bufê, bolo, doces caramelados - cada um desses três últimos itens encomendados a um fornecedor diferente -, mais o vestido das madrinhas, as damas de honra e por aí vai. E as lembrancinhas para cada convidado, mais os doces embrulhados em tule com lacinho de fita para recordação de um momento tão importante.
       O melhor de tudo é o que ninguém vê: as brigas das famílias. Se os pais da noiva ou do noivo são separados, quais nomes devem vir impressos nos convites? O novo cônjuge pode se acomodar no altar ou é relegado a um banco da igreja, como qualquer mortal? Quem fica à esquerda e quem fica à di-
reita? Quem vai estar mais bem-vestida, a 1 atual ou a ex? E se a separação foi dolorosa e escandalosa, o pivô de todo aquele drama tem direito a estar no meio da família como se nada fosse? Quem paga as despesas de toda a parafernália: o pai da noiva ou é tudo dividido? Como e a que horas se combina tudo isso? E se as famílias não estiverem de acordo e acharem que a brincadeira, como  diria Joaquim Levy, está muito cara?      

         Mas o amor, o amor? Ah, é mesmo; e o amor?

                                      (Revista CLÁUDIA, maio 2015)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

SEGREDOS

     Vamos deixar logo bem claro que desejar não é cometer nenhuma infidelidade.

      Dentro de cada coração há um segredo guardado, um segredo que jamais será contado à melhor amiga nem ao padre nem ao psicanalista. Não que seja algo que deva ser escondido. É algo que não poderá jamais ser dividido com ninguém: é uma coisa só nossa.
      Pode se tratar de um fato que aconteceu e seria um escândalo se alguém soubesse
, uma linda história de amor ou apenas um delírio de imaginação, mas, dele, ninguém vai saber, nunca.
      Virou mania contar tudo que nos acontece. Mas as coisas mais graves, mais sé- rias, as que vêm lá do fundo, essas não são contadas a ninguém. A gente pensa que certos pensamentos só acontecem com mulheres muito bonitas e homens muito in-
teressantes, gente que já percorreu o mundo e passou por todas as experiências. Ledo engano. Na vida da mais humilde lavadeira da periferia, podem ter acontecido coisas
que fariam in
veja à mais bela e elegante mulher da cidade, que, tal-
vez por cuidar tanto de sua beleza e de sua elegância, nunca tenha perdido tempo olhando o próprio coração.
       Quando estiver num lugar cheio de gente, comece a prestar atenção nas pessoas. Mas uma atenção diferente, mais cuidadosa. Vai perceber que a mais escandalosamente linda de todas, aquela cujo decote vai até o umbigo e a fenda da saia vai até a cintura, não está vestida dessa maneira para verdadeiramente conquistar um homem, e sim para conquistar todos eles. E todos, nesse caso, quer dizer nenhum. Em algum canto dessa festa, haverá uma mulher absoluta- mente normal, de idade indefinida, conversando com uma amiga. Uma daquelas mulheres para as quais se olha e não se pensa nada - ou, se pensa, é que namoraram, noivaram, casaram, tiveram filhos, foram fiéis e que a Ias foi de um tédio atroz. Pois é aí que IX - e geralmente está - o engano. Essas  costumam ter tido desejos intensos e inconfessáveis, se é que não viveram mesmo um: grandes e trepidantes histórias de amor, quanto mais castas parecerem ser, mais você duvide.
        Vamos deixar logo bem claro que desejar não é cometer nenhuma infidelidade. Daí que nada mais natural que isso tenha acontecido com nossas mães, nossas tias, nossas avós. Talvez na época pré-Freud, elas não conseguissem identificar com precisão o que estava acontecendo. Se pensarem sobre o medo que alguns homens lhes causavam, o pânico de ficar sozinha na sala com alguns deles e a aversão intensa que outros provocavam, tudo isso visto sob uma ótica mais moderna e esclarecida, poderia ser medo não deles,mas do desejo delas próprias. Medo de se
atirar no pescoço de um ou do filho do farmacêutico, que,
pela idade, poderia ser seu filho.
       Quando estiver numa reunião de família com aquelas tias que nunca perderam uma missa em toda a sua existência, ofereça um licor a uma delas e puxe pela língua.  Ela não vai dizer tudo, óbvio, até porque não sabe direito, mas não vai ser difícil para você desvendar os mistérios que se escondem naquele coração. E, se quiser ser bem pérfida, sonde a vida das outras, procure – sutilmente, claro - saber dos podres da família. Ou vai dizer que na sua nunca teve nenhum?
       E, quando olhar para sua avó, tão distinta, com os cabelos tão brancos, com um ar tão distante, imagine as loucuras que não devem ter passado pela cabeça dela. Ou que talvez
ainda estejam passando.

        Eu tenho o meu segredo. E você 
                                                                             (CLAUDIA , agosto 2014)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O PASSADO, UM  PERIGO
O sonho do que poderia ter sido é sempre mais poderoso, porque nos permite imaginar.

       Outro dia, recebi  um e-mail de um antigo fã e bem que gostei. Quando nos conhecemos, houve uma certa paquera, mas não totalmente explícita (éramos muito jovens e ele era tímido). A vida nos levou por caminhos diferentes. Depois desse tempo, nos vimos algumas vezes e, em todas elas, nos olhávamos com um certo encantamento - e retomávamos nosso rumo, cada um para seu lado.
       Para muitas pessoas, é mais fácil escrever do que falar. Anos tinham se passado e só nesse e-mail ele disse, com todas as palavras, que havia desenvolvido um começo de paixão por mim, o que adorei. Adorei e respondi contando que, na época, desconfiei. Ele voltou citando um poema de Alberto de Campos (um dos heterônimos de Fernando Pessoa), Na Noite Terrível. Fui correndo procurar o livro na estante, mas não encontrei. Fui ao Google - santo Google - e achei logo, logo.
      O poema é perturbador. Fala de um homem que, em suas noites de insônia, pensa no que não fez e poderia ter feito; no que não foi e poderia ter sido. Pensa que, se em determinado momento tivesse virado à esquerda e não à direita, tivesse dito sim no lugar de dizer não, hoje poderia ser outro, e até o Universo poderia ser outro também.
  É claro que o texto me perturbou. É cruel pensar que nossa vida talvez fosse, hoje, outra.Que, se ouvíssemos mais - ou menos - nosso coração, encontrássemos mais coragem, sobre- tudo com apenas 20 anos, tudo seria diferente. Mas só sabemos disso muito mais tarde, e 20 anos só se tem uma vez, ai, ai.
 No caso em questão, não houve nada. Tentei lembrar de outros namoros que aconteceram mais ou menos na mesma época e dos quais, mesmo fazendo um grande esforço, mal me recordo. Namoros que na época deram até a impressão de ser amor, pelos quais eu até pensei que sofri e dos quais não lembrava nem dos traços físicos nem do nome. Isso sim é terrível.
   Que mistério é esse que faz as coisas que  acontecem ficar intactas na nossa mente e no nosso coração? Se tivéssemos iniciado um romance talvez houvesse restado uma dor, uma raiva, arrependimento. Mas o sonho do que poderia sido sempre mais poderoso porque nos permite imaginar, e a imaginação costuma ser melhor do que qualquer realidade.
     Meu ex-fã caiu na armadilha em que todos caímos às vezes, e que é um perigo; revolver o passado.  É como, num dia de chuva (e solidão), abrir aquele velho álbum de fotos. Lembrar dos momentos tristes é cruel, e dos momentos felizes também - nem sei o que é pior. Mas não caia na cilada: invente um cinema, vá fazer um bolo ou, na última das hipóteses, ligue a televisão e veja um programa qualquer, mesmo sendo de auditório em um sábado ou domingo. É apenas uma maneira de se proteger; pensar no passado é perigoso, porque ele não volta.
    Tudo que acontece na vida está preservado no fundo do coração. Essas lembranças são ex- clusivamente suas, fazem parte da sua história. Devem ser deixadas quietas, porque qualquer coisa que se refira ao passado dói. E um viva à tecnologia, que guarda num objeto minúsculo, o pen drive, todas as fotografias e canções de momentos importantes, mas que não conseguem nos emocionar tanto quanto uma foto bem antiga ou um disco de vinil.
     O dia está lindo; o céu, azul. E a vida está aí mesmo para ser vivida, sem ontem nem ama-nhã: só hoje, e agora.  

                                                                                (Revista CLAUDIA, outubro 2014.)