sexta-feira, 12 de junho de 2015

ESPALHE CARINHO

   
   NESTE 12 DE JUNHO, VÁ MAIS LONGE: pense grande, aja grande, ame grande. No lugar de simplesmente seguir o comportamento padrão de comprar um presente para seu namorado (ou marido), sair para jantar fora só os dois e depois apenas reto- mar as mesmas atitudes desatentas que norteiam nossa rotina nesta vida de correria e stress, mande mensagens de amor para as pessoas que estão perto de você no dia a dia. Uma amiga querida, um irmão atencioso, uma vizinha cuidadosa, um colega generoso, uma prima amorosa, uma funcionária caprichosa .   
   O mundo precisa se conscientizar de que devemos transcender o ego individual e viver em sentido de comunidade, de compreensão, de colaboração. Você já ouviu falar que todos somos UM? Que vivemos em um universo de inter-relacionarnentos onde o conjunto de nossas ações, pensamentos e emoções afeta o coletivo? Sejam eles bons ou ruins - mais e mais temos notado que a violência que existe lá fora é basicamente o somatório da violência que existe dentro do nosso coração também. E, para mudar isso, precisamos começar mudando a nós mesmos.
    Acredito que essa seja uma enorme oportunidade para revermos esse conceito e pro- mover uma evolução interior. Façamos uma corrente do bem tendo atitudes de gentileza e de carinho em relação a muitas pessoas. Você verá como essas ações inesperadas e desinteressadas vão tocar fundo o coração de
cada uma delas. Não estamos acostumados mais com esse tipo de comportamento gentil e amoroso. Nos dias de hoje, parece que o le-
ma universal é o
"Salve-se quem puder", não é mesmo? Que tal fazer diferente?
   Newton nos ensinou através da lei da física que toda ação implica uma reação. E é exatamente isso o que vai acontecer com você, pode apostar. Um novo posicionamento perante a vida e as pessoas vai acionar esse mecanismo infalível e você sentirá o retorno desse sentimento com a mesma força. É por
isso qu
e chamo esse movimento de corrente do bem. Todos sendo gentis, agradecendo, mandando boas vibrações, fazendo peque- nas delicadezas sempre para o maior número de pessoas fará com que uma nova energia se instale e ganhe força ao nosso re- dor. Estaremos unidos pelo amor fraterno, pela gratidão, pela paciência e pela tolerância.
  Você já imaginou como seris bom viver em um mundo no qual cada um se preocupasse com o outro sinceramente? No qual todos tivessem o mesmo valor e
merecessem sua dose de atenção e carinho? É isso que pro
ponho.
     Seja criativo, utilize o poder da imaginação para inventar e experimentar novas formas de agradecer e mandar mensagens de amor - não importa o tipo de amor. Não se limite aos presentes materiais, às flores e caixas de
chocolate
. Um bilhete, um abraço, um elogio podem fazer ainda mais diferença.
   O que vale é termos no nosso coração esse sentimento mais nobre do amor ampliado e direcionado para todos à nossa volta. Ten- te, o Universo agradece, e você, sem dúvida, presenciará grandes milagres acontecerem ao seu redor.

                                                            (Márcia de Luca, revista CLAUDIA, junho de 2015)



quinta-feira, 14 de maio de 2015

RAZÕES PARA CASAR

       Divertida crônica de Danuza Leão sobre motivos para uma casamento.
     

     Existem razões fortes para que uma mulher se case. Pela ordem: uma paixão louca, interesse, considerar que uma mulher sozinha não é nada, a festa.
     Se o caso é de paixão, não há nada a dizer. A não ser que, com o tempo, se aprende que toda paixão passa.
    O segundo motivo, a ser encarado com o devido respeito, é arrumar um marido rico. Antes de manifestar qualquer sinal de reprovação, vamos falar a verdade: um homem rico não é necessariamente feio, grosseiro, mal-educado, insensível, muito menos um gângster. Tem uns até bem simpáticos, convenhamos. E, como todos sabemos, a vida é dura. Essas ressalvas só não valem se você achar que mulher deve ser absolutamente independente e dividir não só as contas do restaurante como também as do condomínio, da luz, do gás e da internet. Em geral, essas desprezam homens ricos que mandam flores, chocolates e até joias nas datas importantes - o que, aliás, é muito louvável. Mas será que não dá para ser um pouquinho menos radical? E, se no futuro ele for envolvido num escândalo daqueles, com fotos no jornal e tudo, esse já é outro assunto.
    Há também as que não conseguem ficar sozinhas, para não ter que entrar em um restaurante ou em uma festa desacompanhadas. Para elas, esse é o sinal mais evidente do fracasso que é sua vida. Afinal, se não tiver um homem
ao lado, uma mulher vai achar graça de quê? Mesmo que ele seja desagradável, galinha, beba mal e, além de contar piadas, repita cons-tantemente as mesmas, é sempre bom ter um por perto. Ainda que ele entre em casa todas as noites, à mesma hora, dizendo exatamente a mesma frase, com exatamente a mesma entonação, não é uma maravilha saber que não se
está sozinha na vida? Por incrível que pareça, muitas acham que sim.
      E existem aquelas que se casam pela festa. Quanto tempo levam os preparativos para um casamento daqueles? Anos; e o vestido é o menor dos problemas. Começa com a escolha do cerimonialista, que ajuda a decidir tudo, menos o noivo (por enquanto). A escolha da igreja, do local da festa e das dezenas de profissionais envolvidos: fotógrafo, decorador, florista, responsáveis pelos convites, bufê, bolo, doces caramelados - cada um desses três últimos itens encomendados a um fornecedor diferente -, mais o vestido das madrinhas, as damas de honra e por aí vai. E as lembrancinhas para cada convidado, mais os doces embrulhados em tule com lacinho de fita para recordação de um momento tão importante.
       O melhor de tudo é o que ninguém vê: as brigas das famílias. Se os pais da noiva ou do noivo são separados, quais nomes devem vir impressos nos convites? O novo cônjuge pode se acomodar no altar ou é relegado a um banco da igreja, como qualquer mortal? Quem fica à esquerda e quem fica à di-
reita? Quem vai estar mais bem-vestida, a 1 atual ou a ex? E se a separação foi dolorosa e escandalosa, o pivô de todo aquele drama tem direito a estar no meio da família como se nada fosse? Quem paga as despesas de toda a parafernália: o pai da noiva ou é tudo dividido? Como e a que horas se combina tudo isso? E se as famílias não estiverem de acordo e acharem que a brincadeira, como  diria Joaquim Levy, está muito cara?      

         Mas o amor, o amor? Ah, é mesmo; e o amor?

                                      (Revista CLÁUDIA, maio 2015)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

SEGREDOS

     Vamos deixar logo bem claro que desejar não é cometer nenhuma infidelidade.

      Dentro de cada coração há um segredo guardado, um segredo que jamais será contado à melhor amiga nem ao padre nem ao psicanalista. Não que seja algo que deva ser escondido. É algo que não poderá jamais ser dividido com ninguém: é uma coisa só nossa.
      Pode se tratar de um fato que aconteceu e seria um escândalo se alguém soubesse
, uma linda história de amor ou apenas um delírio de imaginação, mas, dele, ninguém vai saber, nunca.
      Virou mania contar tudo que nos acontece. Mas as coisas mais graves, mais sé- rias, as que vêm lá do fundo, essas não são contadas a ninguém. A gente pensa que certos pensamentos só acontecem com mulheres muito bonitas e homens muito in-
teressantes, gente que já percorreu o mundo e passou por todas as experiências. Ledo engano. Na vida da mais humilde lavadeira da periferia, podem ter acontecido coisas
que fariam in
veja à mais bela e elegante mulher da cidade, que, tal-
vez por cuidar tanto de sua beleza e de sua elegância, nunca tenha perdido tempo olhando o próprio coração.
       Quando estiver num lugar cheio de gente, comece a prestar atenção nas pessoas. Mas uma atenção diferente, mais cuidadosa. Vai perceber que a mais escandalosamente linda de todas, aquela cujo decote vai até o umbigo e a fenda da saia vai até a cintura, não está vestida dessa maneira para verdadeiramente conquistar um homem, e sim para conquistar todos eles. E todos, nesse caso, quer dizer nenhum. Em algum canto dessa festa, haverá uma mulher absoluta- mente normal, de idade indefinida, conversando com uma amiga. Uma daquelas mulheres para as quais se olha e não se pensa nada - ou, se pensa, é que namoraram, noivaram, casaram, tiveram filhos, foram fiéis e que a Ias foi de um tédio atroz. Pois é aí que IX - e geralmente está - o engano. Essas  costumam ter tido desejos intensos e inconfessáveis, se é que não viveram mesmo um: grandes e trepidantes histórias de amor, quanto mais castas parecerem ser, mais você duvide.
        Vamos deixar logo bem claro que desejar não é cometer nenhuma infidelidade. Daí que nada mais natural que isso tenha acontecido com nossas mães, nossas tias, nossas avós. Talvez na época pré-Freud, elas não conseguissem identificar com precisão o que estava acontecendo. Se pensarem sobre o medo que alguns homens lhes causavam, o pânico de ficar sozinha na sala com alguns deles e a aversão intensa que outros provocavam, tudo isso visto sob uma ótica mais moderna e esclarecida, poderia ser medo não deles,mas do desejo delas próprias. Medo de se
atirar no pescoço de um ou do filho do farmacêutico, que,
pela idade, poderia ser seu filho.
       Quando estiver numa reunião de família com aquelas tias que nunca perderam uma missa em toda a sua existência, ofereça um licor a uma delas e puxe pela língua.  Ela não vai dizer tudo, óbvio, até porque não sabe direito, mas não vai ser difícil para você desvendar os mistérios que se escondem naquele coração. E, se quiser ser bem pérfida, sonde a vida das outras, procure – sutilmente, claro - saber dos podres da família. Ou vai dizer que na sua nunca teve nenhum?
       E, quando olhar para sua avó, tão distinta, com os cabelos tão brancos, com um ar tão distante, imagine as loucuras que não devem ter passado pela cabeça dela. Ou que talvez
ainda estejam passando.

        Eu tenho o meu segredo. E você 
                                                                             (CLAUDIA , agosto 2014)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O PASSADO, UM  PERIGO
O sonho do que poderia ter sido é sempre mais poderoso, porque nos permite imaginar.

       Outro dia, recebi  um e-mail de um antigo fã e bem que gostei. Quando nos conhecemos, houve uma certa paquera, mas não totalmente explícita (éramos muito jovens e ele era tímido). A vida nos levou por caminhos diferentes. Depois desse tempo, nos vimos algumas vezes e, em todas elas, nos olhávamos com um certo encantamento - e retomávamos nosso rumo, cada um para seu lado.
       Para muitas pessoas, é mais fácil escrever do que falar. Anos tinham se passado e só nesse e-mail ele disse, com todas as palavras, que havia desenvolvido um começo de paixão por mim, o que adorei. Adorei e respondi contando que, na época, desconfiei. Ele voltou citando um poema de Alberto de Campos (um dos heterônimos de Fernando Pessoa), Na Noite Terrível. Fui correndo procurar o livro na estante, mas não encontrei. Fui ao Google - santo Google - e achei logo, logo.
      O poema é perturbador. Fala de um homem que, em suas noites de insônia, pensa no que não fez e poderia ter feito; no que não foi e poderia ter sido. Pensa que, se em determinado momento tivesse virado à esquerda e não à direita, tivesse dito sim no lugar de dizer não, hoje poderia ser outro, e até o Universo poderia ser outro também.
  É claro que o texto me perturbou. É cruel pensar que nossa vida talvez fosse, hoje, outra.Que, se ouvíssemos mais - ou menos - nosso coração, encontrássemos mais coragem, sobre- tudo com apenas 20 anos, tudo seria diferente. Mas só sabemos disso muito mais tarde, e 20 anos só se tem uma vez, ai, ai.
 No caso em questão, não houve nada. Tentei lembrar de outros namoros que aconteceram mais ou menos na mesma época e dos quais, mesmo fazendo um grande esforço, mal me recordo. Namoros que na época deram até a impressão de ser amor, pelos quais eu até pensei que sofri e dos quais não lembrava nem dos traços físicos nem do nome. Isso sim é terrível.
   Que mistério é esse que faz as coisas que  acontecem ficar intactas na nossa mente e no nosso coração? Se tivéssemos iniciado um romance talvez houvesse restado uma dor, uma raiva, arrependimento. Mas o sonho do que poderia sido sempre mais poderoso porque nos permite imaginar, e a imaginação costuma ser melhor do que qualquer realidade.
     Meu ex-fã caiu na armadilha em que todos caímos às vezes, e que é um perigo; revolver o passado.  É como, num dia de chuva (e solidão), abrir aquele velho álbum de fotos. Lembrar dos momentos tristes é cruel, e dos momentos felizes também - nem sei o que é pior. Mas não caia na cilada: invente um cinema, vá fazer um bolo ou, na última das hipóteses, ligue a televisão e veja um programa qualquer, mesmo sendo de auditório em um sábado ou domingo. É apenas uma maneira de se proteger; pensar no passado é perigoso, porque ele não volta.
    Tudo que acontece na vida está preservado no fundo do coração. Essas lembranças são ex- clusivamente suas, fazem parte da sua história. Devem ser deixadas quietas, porque qualquer coisa que se refira ao passado dói. E um viva à tecnologia, que guarda num objeto minúsculo, o pen drive, todas as fotografias e canções de momentos importantes, mas que não conseguem nos emocionar tanto quanto uma foto bem antiga ou um disco de vinil.
     O dia está lindo; o céu, azul. E a vida está aí mesmo para ser vivida, sem ontem nem ama-nhã: só hoje, e agora.  

                                                                                (Revista CLAUDIA, outubro 2014.)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O BANHO NOSSO DE CADA DIA



     A gente tem horror à rotina e isso é uma bobagem. É no comezinho que a vida se organiza e as dores cicatrizam. Um dia após o outro, um banho após o outro. Enquanto você dá conta dessa teimosia, está rolando os dados. Por Hilda  Lucas

   " Foi horrível, a gente brigou feio, se machucou, se ofendeu, ele saiu batendo a porta e, depois de ficar ali parada sem saber se ia atrás ou pulava da janela, sabe o que eu fiz? Entrei no banho. Tomei um banho de vira-lata e saí gente de novo. "

    Banho de vira-lata é aquele em que você entra quase de quatro, se arrastando, se sentindo destruída. Você chora alto, senta no chão, cogita se afogar. Você liga o chuveiro e tudo que você quer é se diluir, esvaziar. Você gasta sua cota anual de água, conta todos os azulejos, sai com os olhos inchados, pele de uva passa, mas sai, e esse sair é transformador. Algo sempre muda depois de um banho de vira-lata e o mais frequente é você se dar conta de que aquele banho lhe fez bem. Um bem simples, reconfortante, que pôs você no prumo, lhe devolveu o rumo e lhe deu força para encarar o dia, a barra de viver, as feras todas. O banho de vira-lata é aquele que você toma com "seus botões de carne e osso", com seus fantasmas,  com sua impotência, seu pânico. Nele você entra sem saídas, sem respostas e pode até sair sem soluções, mas sai estranham ente apaziguada, você sobreviveu ao banho e parte do desespero escoou pelos poros, pelo cano. No banho, a drenagem do cansaço, o conforto da limpeza, a certeza de que a vida segue lá fora, pois banho é reparação.
     Por isso, quando a vida mandar você tomar banho, vá! Vá sem medo, mesmo que se debulhando. Confie no poder do banho. Confie na função terapêutica da rotina. Enquanto você dá conta de se arrumar, se alimentar, trabalhar, dormir (mesmo que com uma ajudinha ... ) e tomar banho significa que você está rolando os dados. A gente tem horror à rotina e isso é uma bobagem, pois é no comezinho da rotina que a vida se organiza e as dores cicatrizam. Um dia após o outro, um banho após o outro.
      O banho nesse quesito é emblemático. Tão simplesinho, tão arroz com feijão, tão generoso. Nossa dose diária de esperança e entusiasmo. O banho nosso de cada dia é uma espécie de oração, de teimosia, de pacto. Na maioria dos banhos, apenas cumprimos nossa rotina de asseio e civilidade. Mas banho que é banho é muito mais que higiene.
       Quantas vezes bradamos: "Meu Deus, preciso de um banho!", certos de que o banho nos devolverá equilíbrio e força. Tomamos banho e ficamos novos, limpinhos, recompostos. Um milagre caseiro feito de água e sabão. Uma parada, um respiro, uma trégua.
      "Tudo o que eu pensava era que quando saísse dali tomaria um banho. Um banho demorado, no escuro, com música e vinho. O juiz lia a sentença do divórcio e tudo o que eu pensava era em tomar banho. Como se no banho eu fosse me livrar de todo o massacre daqueles dias, me limpar de todas as nódoas, esvaziar o vazio. "
        A vontade de tomar banho aflora como uma urgência, uma tábua de salvação, um remédio nas horas mais difíceis e complexas. Tomar banho depois de uma situação extrema é o primeiro indício de que a vida voltará, de uma forma ou de outra, para os trilhos. O banho funciona como o primeiro sim que você diz à continuação do viver.
     "No primeiro banho que tomei depois que meu marido morreu, entendi que eu não tinha morrido com ele. Parece óbvio. mas eu só entendi no banho, um banho igual a todos os outros e totalmente diferente de todos os outros. Pensei comigo: assim serão meus dias, iguais e totalmente diferentes ... "
        No banho, mais que xampus, espuma, cremes, sais, há também o choro, as marcas do amor, as secreções, o medo e a convalescença descendo redentoramente pelo ralo. No banho, a possibilidade de esquecimento, de recomeço, de entrega No banho, nossos dilúvios, nossos redemoinhos, nosso desaguar sem fim; nossos batismos, nossos segredos, nossos mergulhos. No banho, os resíduos do ontem, a troca de pele, o tempo suspenso.
        Saímos de hospitais e enterros pensando em banho; tomamos banho depois de brigas, demissões e discussões. Neutralizamos o desgaste do dia, do trânsito, do trabalho com um banho bem tomado. O banho é, portanto, um hiato entre estágios, interfere no tempo vivido, limpa o corpo, desperta a consciência, nos acorda por dentro. Quantas vezes pensamos no meio da correria da vida: "Daria tudo por um banho ... ". Banho é refúgio, é reset.
        Mulher é um bicho cheio de fluidos e fluxos, marés e maremotos. No mundo feminino, banho que é banho tem um quê de nascimento de Vênus, algo mítico, inaugural, pois alguns banhos são fundadores, divisores de águas. São os banhos de estreia. Aquele que a gente toma depois da primeira menstruação, quando cheias de sustos e intuições vemos sangue misturar-se à água. O banho depois da primeira trepada... O corpo novo, doído, doido, desperto banhando-se de outro. Depois, você inventa sexo no banho e o banho vira leito de rio, pororoca. E o banho que você toma quando descobre que está grávida? Todos os banhos durante a gravidez? O corpo expandindo, os seios explodindo, a imaginação voando. São os banhos de Eva: você e toda a Criação ali, debaixo do chuveiro, imersas em plenitude. Então, vem o banho da maternidade: o leite escorrendo do peito da mãe recém-nascida e você pensa extasiada que teve um filho e filho é para sempre. Mais tarde você analisará no banho as rugas, a flacidez, as marcas do tempo e, depois de certo assombro, tomará seu banho com a mesma diligência amorosa de sempre. No banho, a crônica da vida

       Mas só quando você toma um banho day after, você compreende a força do banho. Banho day after é aquele do dia seguinte a uma ruptura, uma tragédia pessoal. Você sabe que depois daquilo nada será como antes. A vida não será a mesma, nem você será a mesma e, no entanto, você toma banho como se tudo continuasse como era. É incrível. Sua mãe morreu e você toma banho como fez todos os dias. Você se separou e lá está você no banho, a despeito de tudo. Você perdeu um filho, um irmão, sua melhor amiga ou descobriu que tem um tumor e, estoicamente, toma banho. O santo banho, aquele que faz você voltar a funcionar, pois, no caos, o hábito é a regra de ouro para que a vida se recomponha. Nessas horas, tomar banho é comovente. E você tem certeza de que a vida é pura teimosia, que continua a despeito das perdas e dos reveses e no banho você está apenas afirmando: estou dentro, estou viva.
       "A ardência do xampu no olho me despertou. Já estava no banho há horas. Entrei nele feito um zumbi e fiquei debaixo do chuveiro inerte, querendo descer pelo ralo. Não desci, não me esvaí. O ardido no olho me fez reagir. Terminei meu banho com eficiência. Quando saí, caí num choro diferente daquele que eu tinha chorado antes. Lá estava eu, diante do espelho e do resto da minha vida: nua, em carne viva, viva. Fiquei comovida. Era meu rosto, eu mesma. Havia sobrevivido, haveria de sobreviver. A vida por ser reescrita, um novo futuro para construir, um trabalho de doido que acabara de começar com aquele banho. "
         Banho que é banho lava a alma.

          ( Revista LOLA,  abril 2013)